Cardus Edição 96, abril 2021
Todos os anos os CTT de Portugal emitem uma série a que dão o nome de “Vultos da História e da Cultura”. Regra geral os vultos evocados são mais ou menos contemporâneos uns dos outros, mas, este ano, aparecem na mesma série, nada menos nada mais do que, a Rainha Santa Isabel, a Infanta Dona Maria e D. João III, seguindo-se, Afonso Costa, Rui Grácio e Carlos de Oliveira. Desaparece a contemporaneidade e mistura-se plebeus com realeza, o que fica muito bem aos CTT, inovam e adaptam-se aos tempos modernos.
Os seis vultos são todos muito conhecidos, pelo menos os da realeza. Os plebeus talvez menos, Afonso Costa é o único que me é próximo, dos outros dois apenas o nome não me é estranho. Com tanta gente ilustre e com muitos mais a querer sê-lo é difícil conhecermos todos os famosos.
Das seis figuras, a que me despertou mais atenção foi a Infanta Dona Maria, não pela infanta, mas pelo quadro. Este foi pintado por Anthonis Mor van Dashorst, um pintor holandês de retratos, muito requisitado nas cortes europeias do seu tempo, que se deslocou propositadamente a Portugal, a mando de Maria da Hungria, para pintar os retratos da família peninsular da dita senhora. Onde para o quadro, não está por cá, quem o quiser ver ao natural vai ter de deslocar-se a Madrid, ao mosteiro franciscano das Descalças Reais, é lá que ele se encontra.
Existe alguma documentação sobre este quadro e pormenores tais como o vestido da infanta e, até, os brincos que usou, que parece eram duma tia, embora não faltassem adereços deste tipo à retratada, pois chegou a ser identificada como a princesa mais rica da Europa, dadas as posses que tinha, não só em Portugal, como também na França e Espanha, tudo recebido como herança do pai e da mãe.
Na altura do quadro, a infanta estava prometida (ou em negociação diplomática) a Filipe II de Espanha, pelo que é natural que a coroa portuguesa tenha investido na sua imagem. O vestido parece que é riquíssimo, puseram-lhe os tais brincos e rosaram-lhe a face, a maquilhagem da época. Quem estragou o possível arranjo foi Maria Tudor que, entretanto, se tornou rainha de Inglaterra e se interessou por Filipe II de Espanha, com este, por alguma daquelas razões que só os amores reais conhecem, a optar pela inglesa.
Dona Maria foi infanta a vida toda, isto é, nunca casou, nem com Filipe de Espanha, nem com muitos pretendentes que teve, pois além de rica, era tida como uma pessoa nobre e culta. O rei, seu irmão, também não estava muito interessado em vê-la casada com alguém de fora, pois o tesouro real seria notavelmente diminuído com a saída da infanta.
A vida de Dona Maria não deve ter sido fácil, arrisco a dizer que deverá ter sido uma mulher infeliz. Provavelmente, pelo seu nascimento e riqueza aspirava a um certo protagonismo na realeza europeia, mas todas as oportunidades criadas ou negociadas (pelo menos oito) não foram consumadas. Desviou então a sua atenção para a religião e mecenato. Até ao fim da sua vida, dedicou-se à construção de igrejas e hospitais, sei que o atual Colégio Militar, foi, no início, um dos seus hospitais.
Existe muita informação na net sobre Dona Maria, cuja consulta me permitiu realizar este pequeno resumo. No meio da pesquisa fui parar aos arquivos da RTP, mais precisamente aos programas do malogrado professor José Hermano Saraiva. No link abaixo, este famoso comunicador, no seu estilo muito peculiar, fala-nos da Infanta, da sua vida, das suas frustrações, do pai e da mãe, tudo figuras reais que, despidas da artificialidade, não diferem do comum dos humanos.