Cardus Edição 93, janeiro 2021

Selos

Cinquentenário da Associação Caboverdeana

Este selo foi emitido em dezoito de outubro do ano passado numa emissão conjunta dos correios de Portugal e Cabo Verde. Os selos são iguais nas duas emissões, apenas diferem nos valores e na marca dos países. Destaca-se, no selo, a figura de Eugénio Tavares e uma estrofe da morna “Mal d’ Amor” com as ilhas de Cabo Verde ao fundo. Os selos foram emitidos a propósito das comemorações do cinquentenário da Associação Caboverdeana.

Neste mundo do google e da sociedade de consumo uma pesquisa na net com a chave “Associação Caboverdeana” leva-nos imediatamente a um restaurante com a indicação de “comida cabo-verdiana genuína a um preço acessível”. Para este ignorante que quer saber o que é, e o que faz esta associação, o melhor que tem a fazer é mesmo seguir a pagela da emissão.

A Associação Caboverdeana foi condecorada com a Medalha de Mérito pelo presidente de Cabo Verde, em fevereiro do ano passado, nos festejos do seu 50º aniversário, a cujas comemorações também assistiu o presidente da República Portuguesa. Ao que leio é uma associação reconhecida, com mérito, no apoio que dá à comunidade cabo-verdiana em Portugal bem como à divulgação, promoção e afirmação da cultura e dos valores desta comunidade.

A imagem que guardei de Cabo Verde (há muitos anos numa curta viagem em serviço) é de uma natureza severa, mas atraente, e de gente pobre, mas íntegra. E tenho sempre presente o meu pai (que fez tropa em Cabo Verde, no período da segunda guerra mundial) a dizer que os cabo-verdianos eram pobres, mas liam e estudavam muito. Pormenor importante para quem era analfabeto e aprendeu a ler e a escrever na tropa. Também importante saber-se que Cabo Verde tem uma taxa de alfabetização de 90% e um honroso 10º lugar no ranking africano.

A minha ignorância abarca também o nome de Eugénio Tavares cuja figura vejo no selo, mas também não sei quem é. O senhor Google desta vez não me leva a nenhum restaurante, leva-me à Wikipédia e a mais um site, nada menos nada mais que o da fundação Eugénio Tavares (https://www.eugeniotavares.org/docs/pt/obra/index_obra.html) cuja sede, uma surpresa, é em Sintra, sim, a Sintra património mundial. E, já agora, Sintra está geminada com Nova Sintra, a povoação cabo-verdiana da ilha Brava onde nasceu o, afinal, poeta, escritor, compositor e jornalista Eugénio Tavares. A fundação, como é de prever, destina-se a divulgar e manter a obra deste grande senhor cabo-verdiano.

Não me vou ocupar da vida e obra de Eugénio Tavares fico, apenas, pela sua faceta mais conhecida e divulgada, a de criador de mornas. Foi ele que numa combinação de fado, ultrarromantismo e cultura das ilhas de Cabo Verde, criou o género musical único e próprio chamado morna, conhecido e divulgado pelo mundo pelos seus diversos interpretes com Cesária Évora à cabeça. As mornas mais conhecidas, algumas que tinha no ouvido, mas das quais nada sabia, são de sua autoria. Descubro, também, agora (santa ignorância), que a morna é desde há um ano património imaterial da humanidade, tal como o fado.

Diz-se que um bom desenho vale por mil palavras, ouvir uma morna vale certamente mais que um texto longo sobre o tema.  As estrofes que vem no selo pertencem à morna “Mal d´amor”. É esta morna que completa esta crónica, uma interpretação de Celina Pereira, mais uma senhora que desconhecia, a culpa provavelmente não é minha, talvez da televisão e da rádio que nos entopem os ouvidos o dia toda com músicas e vozes todas iguais, na mesma língua e que não nos dizem nada.