Cardus Edição 86, 15-08-2020
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A presente série de sete selos foi emitida pelos Correios da Guiné Portuguesa em 1946, a propósito das comemorações do 5º Centenário da respetiva descoberta pelos portugueses. Nos selos estão representados monumentos e personagens relevantes da história daquela, então, colónia.
Por ordem de valores temos a fortaleza de Cacheu ($30), Nuno Tristão que aparece em dois selos que diferem apenas na cor ($50), o presidente Grant (1$75), Teixeira Pinto (3$50), Honório Barreto (5$00) e a Igreja de Bissau (10$00).
Descobrir ou lembrar quem foi quem nesta panóplia de referências históricas, foi o que tentei fazer nos quinze dias que me estão disponíveis entre duas edições desta página. Há muita documentação na net, aqui deixo um resumo muito pessoal daquilo que me foi dado ler, noto que não se trata dum trabalho acurado de pesquisa, apenas notas soltas que fui retirando daquilo que lia:
A fortaleza de Cacheu localiza-se junto à foz do rio com o mesmo nome, no Noroeste da Guiné-Bissau. Para além da função militar foi ainda um grande entreposto comercial de produtos e, também, de escravos. É um testemunho permanente, para o bem e para o mal, da colonização portuguesa na Guiné;
Nuno Tristão foi o primeiro europeu a pôr os pés no território onde atualmente se localiza a Guiné-Bissau e o seu descobridor oficial. Dedicava-se também à caça de escravos, às mãos dos quais morreu quando fazia uma captura no interior da selva guineense;
O presidente Grant é mesmo o presidente Ulisses Grant dos Estados Unidos. Aparece nesta série porque foi ele que mediou o conflito sobre a ilha de Bolama entre portugueses e ingleses e que decidiu a favor de Portugal. O presidente americano tinha inclusivamente uma estátua na Guiné que, segundo percebi, se encontra desaparecida há uns anos, suspeitando-se que o bronze de que era feita foi reutilizado para outros fins;
João Teixeira Pinto foi um militar que nasceu (Moçâmedes – Angola) e morreu em África (Negomano – Moçambique). Na Guiné foi figura preponderante nas chamadas “campanhas de pacificação”, o que lhe valeu a medalha de Torre e Espada. Foi com ele que Portugal ocupou efetivamente a Guiné, condição saída da conferência de Berlim para garantir a posse do território. Morreu em combate em Moçambique, não contra os indígenas, contra os quais tinha bastante experiência, mas contra uma força de soldados alemães que também andavam a fazer pela vida em África;
Honório Barreto é a figura que me despertou maior atenção. Nota-se na figura que é africano, está fardado e ostenta ao peito uma condecoração. Quem foi Honório Pereira Barreto?
Nasceu em 1813 no seio duma família com tradições e poder no comércio quer na Guiné quer em Cabo Verde. Estudava em Lisboa quando teve de regressar à Guiné devido ao falecimento do pai. Ingressou na administração local e apenas com vinte e um anos já era Provedor e Capitão-mor de Cacheu. Três anos depois passou a desempenhar o cargo de Capitão-mor de Bissau e, durante muito tempo, entre interinidades e nomeações definitivas foi governador da Guiné até 1859, ano em que morreu. Governou a Guiné no tempo em que as colónias estavam mais ou menos à deriva, com reduzido ou nenhum apoio da Coroa, tendo os locais de resistir, pelos seus próprios meios, às investidas britânicas e francesas pela posse do território e controlo do comércio. Foi neste combate que Honório Barreto se notabilizou não só pelas suas qualidades de liderança e visão estratégica como também usando o conhecimento que tinha da terra e o poder económico que detinha e que nunca descurou, onde também entrava a escravatura, como faziam todos os que comerciavam na região. Forte crítico da política de Lisboa, usou a sua literacia não só para se defender publicamente de acusações, como ainda para criticar a política central, como por exemplo a nomeação de governadores (Nomeado um governador, não por suas virtudes e talentos, mas pelo partido que segue, é logo julgado infalível e santo (..) o governador é agraciado, antes de exercer seu cargo pelos serviços que há de fazer, e é agraciado depois pela participações que deu, sem o governo procurar saber se são ou não verídicas) e aquela peculiaridade que tornou a colonização portuguesa diferente de todas as outras (… má qualidade de gente que da Europa vem para estas Possessões, é uma das causas do atraso da civilização delas. Degradados por crimes infames, e homens da mais baixa classe do povo, e que apenas aqui chegados passam a ser notáveis e até oficiais, não podem introduzir bons costumes; antes, pelo contrário, adotam os de cá, porque favorecem a sua imoralidade.).
As fronteiras atuais da Guiné foram desenhadas por ele, recuperou Bolama e os Bijagós, apenas perdeu Casamança para o Senegal, segundo ele por inépcia e estreiteza de visão de Lisboa. Muito território foi comprado com o seu próprio dinheiro, negociando com os régulos e autoridades tradicionais. Não fora ele e o território da Guiné, que já não é grande, muito mais reduzido seria.
À falta de melhores meios o apoio da metrópole veio pela mão das honras. Foi condecorado com comenda da Ordem de Cristo e galardoado com o grau de Cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, tendo ainda atingido o posto de tenente coronel. Quando a descolonização africana começou, a sua figura foi politicamente usada pelas autoridades portuguesas como uma das virtudes do colonialismo português, o seu nome foi dado a uma corveta, a sua esfinge impressa nas notas do banco, uma praça com o seu nome e respetiva estátua foi construída em Bissau. A Guiné independente tudo alterou, o nome desapareceu, a estátua foi apeada, cortada pela cintura e atirada para um canto na fortaleza de Cacheu, onde ainda persiste. Já chegou sem as pernas, entretanto ficou sem um braço, mas a postura de militar, estadista, diria mesmo, aristocrata, mantém-se;
A Igreja de Bissau é atualmente uma catedral e o centro da Igreja Católica na Guiné-Bissau. A igreja e a fé acompanharam sempre os navegadores e exploradores portugueses nas suas andanças pelo mundo. A Igreja da Guiné também deve muito a Honório Barreto.
(Nota: texto em itálico transcrito de http://aguine.blogspot.com/2016/04/colonizacao-da-guine-1800.html).