Cardus Edição 85, 01-08-2020

Selos

150 Anos do Chorinho



O presente bloco de selos foi emitido pelos correios do Brasil em 23 de abril do corrente. Trata-se duma emissão comemorativa dos 150 anos do Chorinho, um género musical popular no outro lado do Atlântico onde também se fala português.

No bloco estão representados os instrumentos mais comuns do Chorinho como sejam a flauta transversa, o bandolim, o violão de sete cordas, o cavaquinho, o pandeiro e o clarinete. Todos estes selos estão dispostos sobre uma composição artística onde é possível distinguir um bandolim, um pandeiro, a lua e o céu estrelado e ainda os Arcos da Lapa, lugar central da boémia brasileira e onde parece ter nascido o Chorinho.

Os correios em Portugal sempre que lançam uma nova série de selos produzem um documento a que chamam pagela que, para além dos elementos técnicos da emissão, inclui também um artigo ou informação complementar sobre a temática do selo. As pagelas são peças pequenas de cultura e, diria mesmo, de literatura, dada a grande qualidade dos textos que regra geral apresentam. Os correios do Brasil seguem o mesmo processo, mas aqui a pagela leva o nome de edital. O texto que se segue é uma transcrição ipsis verbis do edital desta série. Para além da informação histórica sobre o tema tem a vantagem de estar escrita no português do Brasil, com as suas expressões e arranjos muito próprios.

Em novembro de 1808, a Família Real Portuguesa aporta no Rio de Janeiro trazendo consigo um imenso contingente de europeus que transformaria para sempre, política e culturalmente, o perfil da cidade. Muitas partituras e instrumentos musicais chegaram com a corte e logo a música das danças europeias de salão, tocada pelos pianos, começa a chegar ao ouvido dos modinheiros e músicos de bandas militares, que acrescentam a elas o tempero rítmico afro-ameríndio do mestiço povo local, criando aos poucos um sotaque único. A quadrilha é um gênero dançante assimilado pelos músicos brasileiros e que, em uma versão mais tardia, viria a se tornar a dança das festas juninas. A valsa é a primeira dança de coreografia não coletiva a ser praticada no Brasil, nos salões da nobreza. A influência negra, dos batuques e lundus, é fundamental para a nacionalização da polca, que passa a apresentar melodias sincopadas com características muito diferentes das polcas europeias. É da união de diferentes ritmos que nasce o choro.  Por volta de 1870 começam a surgir os primeiros conjuntos de choro, sendo o “Choro de Callado” um dos mais importantes desse período. Organizado pelo exímio flautista Joaquim Callado, o grupo era formado por músicos oriundos das classes populares conhecidos como “chorões”. Por ser considerado um marco na historiografia sobre gênero, esta data celebra os 150 anos do Choro no Brasil. Dentre os compositores pioneiros que ajudaram a dar características a essa música e consolidá-la como gênero musical estão o maestro e pianista Henrique Alves de Mesquita, a maestrina e pianista Chiquinha Gonzaga, o maestro, professor e regente Anacleto de Medeiros e o pianista Ernesto Nazareth.

A década de 1920 marca o início das transmissões radiofônicas e o aumento da produção fonográfica no país, inaugurando uma nova fase na história do choro: a Era do Rádio. Os chorões passam a se profissionalizar e a ter atuação fundamental na produção musical que será veiculada por todo o país através da rádio e do disco. Pixinguinha será o primeiro músico negro a ser contratado pela gravadora Victor, tornando-se diretor musical, arranjador e regente da Victor Brasileira. Incorporando elementos das bandas de música e influências rítmicas negras, suas orquestrações marcarão uma nova forma de se fazer arranjo no Brasil. Alguns anos depois, o pianista e compositor Radamés Gnattali formará, com Pixinguinha, a dupla de ouro de arranjadores do país.

Ao longo de sua história o choro foi tocado por pequenos conjuntos de câmera, grandes orquestras, big bands, orquestras típicas argentinas, grupos de jazz norte-americanos e outra variedade imensa de combinações de instrumentos. Apesar disso, é impossível se dissociar o choro de sua formação instrumental mais típica: o regional – nome pelo qual passou a ser conhecido o conjunto tradicional de choro, formado por um ou dois instrumentos solistas (como flauta, clarinete, bandolim e instrumentos típicos de bandas como trompetes, trombones e oficleides), dois violões, cavaquinho e pandeiro. Os regionais serão valorizados por terem grande versatilidade para tocar “de ouvido”, improvisar arranjos instantâneos e acompanhar cantores. O conjunto regional de maior destaque na Era do Rádio é o do flautista Benedito Lacerda, que reúne alguns dos melhores músicos de acompanhamento da história da música popular brasileira: Dino e Meira nos violões e Canhoto no cavaquinho.

Para além dos regionais, surgem alguns dos maiores solistas (e compositores) da história do choro, tais como Luiz Americano, Ratinho, Jacob do Bandolim, Garoto, Waldir Azevedo, Altamiro Carrilho e Sivuca. A roda de choro sempre foi essencial para a preservação e renovação da cultura do choro. Neste ambiente de aprendizagem coletiva os chorões criam seu repertório, compartilhando uma linguagem que é, ao mesmo tempo, musical e social. Embora tenha, na década de 1960 e metade da década de 1970, ficado afastado dos meios de comunicação, o choro teve a roda como um importante espaço de interação entre músicos, fazendo com que surgisse uma nova geração que contribuiria substancialmente para essa linguagem musical.

Com 150 anos de história, o choro tem sua trajetória registrada por diferentes meios: jornais, livros, depoimentos, gravações, pinturas e retratos espelham a riqueza deste que é um dos maiores gêneros de música popular urbana ainda em atividade no mundo e que vem sendo constantemente atualizada através de uma ativa cena musical que movimenta clubes e escolas de choro em diversos países da América Latina, Ásia e Europa.

Por meio da emissão deste bloco comemorativo, os Correios homenageiam este importante gênero musical brasileiro, parte importante da História da música do país.

 Casa do Choro