Cardus Edição 83, 01-07-2020
Este selo foi emitido pelos CTT em 28 de maio do corrente, integrado numa série de quatro denominada “Festas e Romarias – Lugares de Fé”. O selo na imagem refere-se às festas de S. António de Lisboa, nos outros três estão representadas as festas de São João no Porto, de São Pedro no Montijo e a festa dos tabuleiros em Tomar.
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Numa tradição de milhares de anos, seria longa e inesgotável uma lista dos lugares de romaria e festa cíclica em Portugal. O Cristianismo, como bem nota, num tom de dura crítica, Martinho de Dume no seu ‘De Correctione Rusticorum’ (Da Correção dos Rústicos, século VI), integrou uma parte muito significativa dos cultos politeístas anteriores, sejam os que mais perduraram no tempo, os lugares altos, muitos com culto desde a Idade do Bronze, sejam as festas em honra dos rios, de nascentes e dos bosques.
Esta herança deu a Portugal um colorido ímpar e uma riqueza de tradições que percorre o país de norte a sul, do interior ao litoral num sem número de matizes entre o passado pagão e uma cristianização quase sempre superficial mediante uma fraca mudança de roupagem ou de nomenclatura.
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In Festas e Romarias – Lugares de Fé, Paulo Mendes Pinto, edições dos CTT.
Por alguma influência, prática ou educação, tenho da religião uma visão mais de penitência e oração do que de festa. Sempre tive alguma dificuldade em compreender ou entender as festas religiosas. O texto acima, transcrito da pagela da emissão, contribuiu bastante para compreender melhor esta ligação entre a festa e a religião.
Há muitos anos num grupo de portugueses e alemães falava-se da especificidade da alma portuguesa, interpretada pelos alemães como triste, melancólica e pessimista, ideia de que eu, na altura, também partilhava. Nada disso, explicou um português, aquele estereotípico aparece por via do fado, a alma portuguesa é alegre, manifesta-se coletivamente nas festas que a acompanham ao longo de praticamente todo o ano.
As festas dos santos populares são a prova disso. No caso de Lisboa, em que o santo honrado é o Stº António, é todo um espetáculo de cor e alegria que vem para a rua. Os bairros históricos enchem-se de manjericos cheirosos, sardinha assada a saltar na grelha e imperiais fresquinhas. Música por todo o lado, a popular, as marchas, e o pé de dança, que todos podem praticar mesmo que não conheçam a técnica, assim encontrem espaço para o poder fazer.
Moro há muitos anos nos arredores de Lisboa, mas nunca fui às festas de Stº. António. Tudo o que aqui escrevo foi o que li e me contaram. Também me dizem que é tudo uma grande confusão, mal se pode andar, o que não me admira pois conheço bem o tamanho das ruas e largos dos bairros históricos. E que há muito especulação, a sardinha atinge preços exorbitantes e vem geralmente mal assada. Enfim, nada como verificar in loco, é isso que estou tentado a fazer, não este ano que a festa já foi, mas talvez para o próximo assim o Covid me dê autorização para tal.