Cardus Edição 81, 01-06-2020

Selos

Dia Mundial da Língua Portuguesa



Estes dois selos foram emitidos pelos Correios de Portugal em 5 de maio de 2020, a partir deste ano o dia internacional da língua portuguesa.

Muito se falou sobre o evento, a língua portuguesa esteve por todo o lado, na rádio, na TV, nos jornais e em muitas iniciativas particulares.

Aprendi assim que a Língua Portuguesa tem correntemente 260 milhões de falantes, é a mais falada no Hemisfério Sul, a sexta a nível global (logo a seguir ao mandarim, espanhol, inglês, hindi e árabe), a quinta mais usada na internet (inglês, chinês, espanhol, árabe e português) e a terceira no Facebook.

Estes números são assim porque existe um colosso chamado Brasil que é, atualmente, o senhor da língua portuguesa. As contribuições dos outros países da CPLP, mesmo de Portugal, são irrisórias, quem domina é o português do Brasil. Lá fora, quando se diz que alguém fala português, o sotaque que aparece é do Brasil, gravações nos aviões em língua portuguesa têm também sotaque brasileiro. O mesmo sotaque aparece em cursos de português no estrangeiro.

Demorei a aceitar esta hegemonia. Ainda utilizei durante algum tempo corretores de texto anteriores ao novo acordo ortográfico, mas tudo isto pertence agora ao passado. O corretor está atualizado, esforço-me por escrever em português moderno e, ainda mais, quando falo para Call Centers, prefiro ser atendido por sotaque brasileiro, as instruções são muito mais claras e percetíveis. Quando me calha sotaque da terra, qualquer frase tem de ser repetida mais do que uma vez até conseguir perceber. Também deixou de me irritar ser encaminhado para sites do Brasil ao fazer pesquisas na net: afinal a informação está toda lá, em português nato, nem tudo são traduções do Google. A imagem de Fernando Pessoa e a pergunta “A sua língua não é português?”, aparecem-me regularmente quando faço pesquisas em inglês, o que me deixa algo incomodado comigo próprio.

É o Brasil que vai tornar a língua portuguesa universal e global e que não vai permitir que a globalização a mate como provavelmente vai suceder a grande parte das línguas atuais nomeadamente algumas europeias.

Os portugueses não fazem muito pela língua que dizem ser sua. Renegam-na na primeira oportunidade, é só aparecer alguém com ar estrangeiro e a língua muda logo para inglês e mais recentemente para castelhano. Em qualquer reunião ou encontro basta haver um único espanhol ou inglês, que o português passa logo a secundário. Na diáspora vai-se mais longe, há quem esconda a origem e a língua.

Há tempos assisti a uma cena patética na televisão em que um treinador espanhol a trabalhar em Portugal aproveitou o tempo de antena para apelar aos portugueses para falarem com ele em português, o que pelos vistos é difícil de fazer … em Portugal.

É por estas razões que cada vez gosto mais do Brasil e dos brasileiros, os que mais difundem e valorizam a minha língua. Vivi muito tempo num território africano, onde também se fala português e me habituei aos grandes espaços, a ter horizonte para além do horizonte. Em Portugal para lá do horizonte ou está o mar ou está a Espanha, somos pequenos e não é só no espaço. O que nos torna grandes é a língua. É com ela que temos horizonte para lá do horizonte, é ela que nos liberta, é ela que não nos deixa atrofiados a este pequeno retângulo, é graças a ela que o nosso espaço está muito para além das fonteiras que nos envolvem.