Cardus Edição 78, 15-04-2020

Selos

500 Anos da passagem do estreito de Magalhães



Estes dois selos foram emitidos pelos correios de Portugal em dezoito de março do ano corrente, a propósito das comemorações dos quinhentos anos da passagem de Magalhães pelo estreito que ficou com o seu nome.

As comemorações dos 500 anos da primeira viagem de circum-navegação vão durar três anos, tantos quantos durou a viagem. Estão previstas muitas cerimónias e acontecimentos à medida que os marcos da viagem forem atingidos.

Um dos marcos, talvez o mais importante, foi a descoberta dum caminho que ligasse o Atlântico ao Pacífico. Era este caminho que a armada das Molucas, há quinhentos anos, andava procurando quando descia pelo Atlântico do lado do continente americano.

A vinte e um de outubro de mil quinhentos e vinte, Magalhães e a sua armada (já sem a Santiago que tinha naufragado) encontravam-se na entrada oriental do estreito que, aparentemente, não passava de uma grande baía. Mandou um tripulante subir a um morro, mas também não viu mais do que isso, apenas uma grande baía fechada. Por algum acaso ou razão, Magalhães mandou duas naus efetuarem um reconhecimento. Estas acabaram por descobrir um canal estreito ao fundo da baía por onde entraram e continuaram, passaram ainda um segundo, viram que havia continuidade e voltaram para trás para dar a boa nova ao comandante: estavam plenamente convencidos que tinham descoberto a passagem. A passagem, efetivamente, estava descoberta, mas não foi fácil chegar-lhe ao fim. A armada andou cinco semanas (e quinhentos e sessenta quilómetros) até atingir o pacífico pois teve de espiolhar inúmeros canais ou fiordes do grande mar patagónico. Hoje podemos ver nos mapas que, se Magalhães tivesse descido mais umas léguas, teria passado para o outro lado com mar limpo, embora com vento mais frio.

Pigafeta, cronista da viagem e grande admirador do almirante, era um espectador atento às inúmeras curiosidades e novidades que iam encontrando durante a viagem. Na passagem do estreito fala-nos dos gigantes patagónicos e dos peixes voadores. Conseguiu entender-se com os gigantes (que parece que não eram tão altos quanto isso), convenceu dois a seguirem viagem com a armada. Sobre os peixes voadores, deixo aqui um pequeno excerto da sua crónica:

… E acho que não há no mundo país mais bonito ou lugar melhor que este. Neste mar oceânico existem três espécies de peixes com um comprimento de um côvado e mais, chamados Dorades, Albacores e Boniti, que perseguem e caçam um outro tipo de peixe, voador, os Colondriny, um pé ou mais em comprimento, que são muito bons para comer. E quando as primeiras três espécies de peixes encontram na água alguns desses peixes voadores, obrigam-nos a sair, seguem-lhes o voo pela água e quando eles caiem exaustos, atacam-nos e comem-nos. Isto é uma coisa maravilhosa e alegre de se ver. E vimos estas perseguições muitas vezes. …

Passado o estreito, Magalhães entrou no pacífico, já sem a Santo António que, entretanto, desertara e regressara a Espanha. Começa agora a parte mais trágica da viagem. É mais um marco, provavelmente também vai ser lembrado. Se os CTT produzirem uma emissão comemorativa, cá vai ficar o respetivo registo.