Cardus Edição 77, 01-04-2020
Estes oito selos foram emitidos pelo Royal Mail em 11 de fevereiro do corrente a propósito das comemorações dos 200 anos da Royal Astronomical Society (RAS), uma sociedade inglesa líder na investigação e promoção da astronomia, do sistema solar e da geofísica no Reino Unido.
A primeira viagem à volta do mundo demorou cerca de três anos (pelo mar, claro). Há um filme do antigamente muito conhecido (baseado num livro) que conta a história dum inglês fleumático que, por aposta, deu a Volta ao Mundo em 90 dias. Yuri Gagarin deu a volta à terra em 108 minutos, foi o primeiro homem do espaço. Qualquer pessoa, hoje em dia, vai a qualquer lado (mesmo nas antípodas) em menos de vinte e quatro horas. Viajamos cada vez mais rápido.
Viajamos muito. Conhecemos a terra como ela é, com a beleza que ela tem. Admiramos as cascatas, o deserto, a selva, as praias, a floresta equatorial. Tudo! Sentimo-nos felizes por isso, achamos que já vimos tudo, já não há mais nada para ver. Mentira, o que vimos até agora, o que conhecemos até ao momento, é simplesmente nada. A terra é um pontinho minúsculo do universo, há um espaço infinito à volta dela, cheio de novidades, muito para descobrir e conhecer.
Daqui a centenas, milhares ou milhões de anos, não faço a menor ideia, outros seres que já não terão nada a ver connosco, provavelmente com pouca carne e osso, mas muito silício impregnado, vão poder viajar pelo espaço fora, vão ver e apreciar outros fenómenos, dos quais hoje apenas podemos imaginar como serão. E se os fenómenos forem como as imagens dos selos, vai haver muita cor, o espaço não é aquele infinito cinzento pardo como pensava. O nosso próprio planeta é muito bonito visto do céu, é azul, como nos disse Yuri Gagarin, em 1961, olhando a terra duma altura de 327 quilómetros.
Com a ajuda desta emissão de selos dos correios ingleses e da wikipedia, vamos então dar um grande salto no tempo, vamos para o futuro, eis uma pequeníssima amostra das maravilhas que podemos encontrar:
Cat’s Eye Nébula
Para se chegar à Nébula “Olho de gato”, vão ser precisos 5300 anos se se viajar num fotão. Como no futuro a velocidade da luz deve estar classificada como marcha lenta e os humanos(?) já devem viver muito mais que uma centena de anos, deve ser possível ir pelo menos uma vez na vida ao “Olho de gato”. O espetáculo aqui não é a água nem o verde, mas sim nós, jatos, bolhas e arcos complexos iluminados pelo núcleo da nebulosa planetária central. Apesar de longe, conhecemos bem este futuro destino turístico, graças aos astrónomos ingleses e ao Hubble.
Enceladus
Pobres de nós que só conhecemos uma lua que por sinal não é grande coisa. O nosso enésimo descendente vai escolher a lua que quer ver. E uma delas é a Enceladus a mais visitada das 82 luas de saturno. É uma lua fresquinha coberta de gelo limpo. O fenómeno mais apreciado são os geysers de vapor de água e sal que vão para o ar e a maior parte voltam à lua sob a forma de neve.
Pulsars
Os pulsares são os faróis do espaço. A ritmos certos, certíssimos mesmo, dirigem a luz para nós e desaparecem. Não são um destino turístico, nem servem para nos guiar pelo espaço, são apenas luzes intermitentes para nos fazerem companhia.
Black Holes
Os buracos negros são difíceis de ver e convém guardar deles uma distância mínima. Melhor mesmo é evitá-los. São uns comilões, engolem tudo o que lhes passa por perto, sejam aviões, pessoas ou mesmo luz. Como cá, neste minúsculo ponto do universo, há sítios onde não se deve ir, sob pena de por lá ficar.
Jupiter´s Aurora
As nossas auroras boreais ou astrais são espetaculares, mas as de Júpiter também. E são diferentes. E a grande vantagem é que se vai lá em menos de cinco minutos, apanhando boleia no fotão da carreira. E os pacotes turísticos não são muito caros. Sai-se de manhã, vê-se o espetáculo e ainda se vem jantar a casa. É mais rápido que ir aos pastéis de Belém.
Gravitational lensing
São precisos bons SPS (Stellar Position System) para viajar no espaço. Não é só andar para a frente é preciso desviarmo-nos dos buracos (principalmente dos negros) e mantermos a rota. Tal como nos tempos das caravelas há muitos mostrengos pelo espaço fora a tentarem estragarem-nos a viagem e a atrair-nos para locais que não queremos. Einstein falou-nos destes desvios, os SPS sabem as contas que devem fazer para mantermos a rota. Em princípio a viagem é tranquila, mas há que estar atento pois as máquinas podem falhar.
67P
O 67P é um patinho feio, mas de que toda a gente gosta. É um cometa pertencendo ao nosso sistema solar composto de rocha, gelo e pó. Os fotões turísticos levam-nos lá em menos de uma hora. Os locais mais visitados são o espaço Philae e a Zona Rosetta: no primeiro pousou em 12 de Novembro de 2016 a primeira sonda terrena; no segundo despenhou-se em 30 de setembro do mesmo ano, o módulo que a transportava.
Cygnus
O Cisne é um grande parque de estrelas e afins. Tem este nome porque se unirmos os pontos mais vistosos e juntarmos muita vontade conseguimos, nos dias de hoje, ver um cisne. Neste parque temos a estrela mais brilhante (Deneb) e a maior de todas as conhecidas a Cigny. É possível ver também planetas e cometas, mas, não há bela sem senão, tem também um invisível buraco negro. É, assim, preciso ter algum cuidado quando se visita este parque.
…
Isto e muito mais vai estar à disposição de quem por cá andar daqui a muitos, mas mesmo muitos anos. A nós, que nos calhou vivermos neste período, temos de nos contentar com o ver as estrelas, o que já não é nada mau e é sempre um espetáculo que vale a pena, assim a lua se esconda, a noite esteja escura e o céu limpo.