Cardus Edição 72, 15-01-2020

Selos

Os Portugueses na Austrália



Estes dois selos foram emitidos pelos CTT em 19 de março de 1999, sob o tema “Os Portugueses na Austrália”, numa altura em que era moda (ou alternativa) emigrar-se para a Austrália. Os selos foram desenhados por Carlos Possolo, lá estão a caravela portuguesa, os cangurus e os “invasores” de há quarenta mil anos, os atualmente chamados aborígenes, um deles com um boomerang na mão.

Existe alguma polémica sobre quem foram os primeiros europeus a atingir a Austrália. Oficialmente foram os holandeses em 1606, mas há quem afirme, com algum apoio científico, que, muitos anos antes, pelo menos duas expedições portuguesas, a de Cristóvão de Mendonça que partiu de Malaca para o sul em busca das "ilhas de ouro" (1522) e, sobretudo, a de Gomes de Sequeira (1525), teriam desembarcado no território australiano. Os desembarques poderiam ter sido forçados, eventualmente terá havido um naufrágio. Ajuda esta teoria o facto de terem sido descobertos dois canhões de fabrico português naquelas datas, na costa noroeste da Austrália; também, os portugueses terem aberto um entreposto comercial em Timor no ano de 1516; e, a parte mais interessante, as sessenta palavras de origem portuguesa que um reputado linguista alemão (que andou trinta anos a estudar as línguas aborígenes) afirmou ter descoberto nas línguas das etnias Ngarluma e Karriera da mesma costa (uma das palavras é “tartaruga”).  Há ainda uns mapas que parecem também indiciar esta presença, enfim, a polémica está instalada, os investigadores de história gostam muito delas e a imprensa também.

Primeiros, segundos ou terceiros a desembarcarem não interessa, quem se implantou no terreno foram os ingleses, em 1770, através do comandante James Cook, que numa cerimónia realizada numa ilhota hoje chamada “ilha da possessão”, içou a “Union Jack” disparou uma salva de mosquetes e reclamou o território para o império britânico. Ainda hoje o chefe de estado da Austrália é a rainha de Inglaterra, representada por um governador Geral por ela nomeado, cujo papel é praticamente igual ao seu (papel representativo, assina e promulga tudo o que o primeiro ministro lhe põe à frente).

Por razões familiares passei algumas temporadas em Sydney, conheci também Brisbane (um pouco mais a norte) duas cidades do boomerang Australiano, a zona onde vive 80% da população que não é muito grande, cerca de vinte e cinco milhões no total, muito pouco para a imensidade do território. O interior da Austrália é deserto (outback) praticamente não tem vida humana, mas tem muita vida animal de pequena dimensão, alguma única no mundo, as cobras venenosas são os animais mais temidos. Moscas e insetos também não faltam, é o que me diz quem por lá andou.

A comunidade portuguesa na Austrália anda à volta de sessenta mil pessoas, sem expressão e influência. Em Sydney e arredores é frequente ouvir-se falar português grande parte com aquele sotaque que nos ficou familiar das telenovelas brasileiras. As comunidades imigrantes têm tendência para se juntar, em Sydney existe a zona dos gregos, dos italianos, dos libaneses e assim por diante. A zona dos portugueses (onde é possível comer pasteis de nata e almoçar com ementa e conversa em português) é apenas uma rua (Petershausen) o que está de acordo com a dimensão da colónia portuguesa. Em Sydney existe alguma estatuária dos grandes navegadores, nomes nossos conhecidos estão também representados, o que nos faz bem ao ego.

As comunidades imigrantes não dão muito trabalho ao governo, a única que lhe traz problemas foi a que imigrou (se é que não nasceram lá) cerca de quarente mil anos antes, os famosos aborígenes que provavelmente viveram isolados até à chegada dos novos colonizadores. São cerca de seiscentos mil, vivem principalmente nos territórios do Norte, salvo raras exceções não aceitam a nova cultura, querem viver como sempre viveram o que parece não ser mais possível.

O fim do Mundo não existe, mas a sensação de quem visita a Austrália é mesmo estar nele. Perth a grande cidade mineira do lado oeste é a cidade mais isolada do mundo, dois mil quilómetros de distância separam-na de Adelaide, a mais próxima.

Da Austrália tenho pena de não ter visitado o interior, não para ver a paisagem terrena que é sempre a mesma, mas a aérea, o céu, onde, nas noites escuras e sem nuvens, deve ser possível ver aquele espetáculo único do grande universo, dos milhões e milhões de estrelas luzindo, umas mais outras menos, em que nos sentimos pequeninos, muito pequeninos mesmo, uma célula miniatura e efémera na grande vida do universo.