Cardus Edição 102, outubro 2021



SELOS, essa coisa admirável!








500 Anos da Chegada de Magalhães às Filipinas


Estes dois selos e o bloco foram emitidos pelos CTT em 19 de julho do corrente a propósito das comemorações do cinquentenário da primeira viagem de Circum-Navegação, neste caso da chegada de Fernão de Magalhães às Filipinas.

No dia 28 de novembro de 1520, quarta-feira, deixámos o estreito e entramos no Pacífico, onde estivemos três meses e vinte dias sem conseguir qualquer alimento fresco. E comemos somente biscoitos, aliás, pó de biscoitos, cheios de vermes e fedendo a urina de ratos, deixada por estes quando comiam o melhor. E bebemos água impura e amarela. E comemos também peles de boi que estavam no topo dos mastros, depois de as deixarmos de molho no mar durante quatro dias, pois estavam muito duras devido ao sol, vento e chuva. Passámo-las ligeiramente pelas brasas e assim as comemos. E os ratos, que chegaram a ser vendidos por meio ducado, não chegavam para todos. …

É com estas palavras que Pigafeta, o supranumerário que acompanhou Magalhães apenas para fazer o relato da viagem, inicia o capítulo XII do seu livro. O texto continua com o escorbuto, a terrível doença que, ainda segundo Pigafeta, causou a morte a 29 marinheiros e impediu que mais 25 pudessem realizar qualquer trabalho mesmo que vergastados com a corda do contramestre.

Nem consigo imaginar o que é viver quase quatro meses nestas condições, mesmo com o mar sempre calmo e “pacífico”. Penso que os que resistiram ou sobreviveram, apenas o conseguiram porque não havia alternativa. Como sabiam que não andavam à roda, navegavam para Oeste, apenas havia que esperar, um dia avistariam terra, ou esta não fosse redonda. E foi o que sucedeu a 6 de março de 1521. Nesse dia, duas massas sólidas de terra surgiram lentamente no mar, a armada apontou à ilha maior e foi recebida por uma escolta de pequenos, mas rápidos, barcos à vela, tripulados por pessoas de cabeça rapada, por sinal mais fortes e altas que os europeus. Estava feito o primeiro contacto entre duas sociedades que se desconheciam mutuamente: uma, onde imperava a ordem, a propriedade, as regras e a hierarquia; outra que não sabia o que era a propriedade, desconheciam regras e autoridade e viviam conforme lhes apetecia. Como seria de esperar não correu bem este primeiro encontro.

Bom, mas não é esta a parte da epopeia histórica de Magalhães que a emissão de selos refere. Magalhães já está nesta altura nas Filipinas, a sua tripulação novamente sadia, todas as necessidades do corpo, espírito e outras mais, devidamente satisfeitas. Já se meteu na política local, já está aliado a Rajah Humabon, Rei de Cebu. Mais, rei e rainha converteram-se à fé católica no que são seguidos por muitos súbditos. É esta parte religiosa da epopeia que os selos desta emissão consagram. Na imagem do bloco, Fernão de Magalhães entrega à rainha de Cebú, a imagem do menino Jesus, uma cerimónia que aconteceu e que ainda hoje perdura como a maior manifestação católica nas Filipinas (juntamente com Timor-Leste os únicos países asiáticos de maioria católica).

Como se sabe esta aliança de Fernão de Magalhães acabou por o levar à morte, o que provavelmente vai ser motivo para uma próxima emissão dos CTT ainda enquadrada nas comemorações dos 500 Anos da primeira viagem de circum-navegação. Se assim for não vai faltar a respetiva crónica neste pequeno jornal digital.