Cardus Edição 77, 01-04-2020

Malisca

Tempos de Guerra


No silêncio das quatro paredes, onde me encerro, escuto, pela frincha da janela, a primavera que teima em chegar alheada dos medos e ansiedades dos homens. A Terra continua a girar, o sol acorda-nos e adormece-nos, o vento, calmo, leva e traz a cantoria de melros e pardais. Enquanto isto, as árvores vestem-se, o céu não se despenteia e os rios casam com o mar indiferentes às imposições e medidas das sociedades.

É tempo de clausura! É tempo de mudança! É tempo de escutar as histórias do passado histórico experienciado pelos mais velhos e com eles aprender, por exemplo, regras simples de sobrevivência ou, ainda mais importante, a relativizar as circunstâncias e apelar à força e coragem interior que todos nós temos e nem sonhamos possuir.

Destaco uma que a minha avó me contou quando, há cerca de 45 anos, acompanhou o processo de independência de uma das ex-colónias onde o recolher era obrigatório e as prateleiras dos supermercados se enchiam de vazio. Os dias passavam sem redes sociais, ainda não havia televisão e os telefones eram fixos. A mensagem passava via rádio ou de boca em boca. Conseguiam saber, por vezes, que no dia a seguir chegaria este ou aquele contentor com alimentos, para serem distribuídos num tal sítio qualquer. Às três da manhã já a fila começava a ganhar contornos e às 8 já havia um comício de gente. As portas só se abriam depois da chegada dos militares que, de chicote no ar, conseguiam controlar a vez no meio da gritaria e discussão de quem deixara pedras a guardar lugar para, rapidamente, resolver qualquer urgência.

Depois de muitas horas em pé, por vezes debaixo de um calor abrasador, a minha avó lá regressava a casa com um kilo de carne ou um frango congelado.

De uma dessas vezes, regressou a casa com dois frangos, já descongelados, pelas cinco da tarde. Descansou um pouco, fez o jantar com um quarto de frango e recongelou o resto. Em tempo de guerra não se limpam armas como se diz e era importante recongelar novamente os frangos que, bem poupados, dariam para mais sete refeições, significando duas semanas de conduto a uma cadência de dia sim dia não. Feito o jantar, pelas sete da noite, começou a sentir umas moinhas incómodas que confidenciou com o meu avô.

Grávida de nove meses tinha chegado a sua hora e lá foi ela para a maternidade. Sem saber se era menino ou menina, sem nunca ter feito uma ecografia, o meu pai nasceu ao outro dia quando o sol já ia alto.