Cardus Edição 80, 16-05-2020

Malisca


O Sonho


Cartas de amor, mandou tantas! Ele em Nova Lisboa, ela em Portugal, sentia na distância os quilómetros da sua tristeza. E, à medida que os dias se repetiam, sempre indiferentes ao seu infortúnio, a bolha da sua solidão aumentava com eles. Queria muito casar-se, mas ela impunha condições: o sim, só quando já tivesse casa! Só dessa forma o acompanharia na busca do amanhã.

Empenhado, calcorreou toda a cidade e arredores numa procura incessante pelo tão desejado futuro lar. Com um salário atrofiado, não iria ser fácil enfrentar a brutalidade do valor das rendas. Mas, num dia refulgente, daqueles em que o sol, do cimo da sua grandeza se mostra presunçoso e se aproveita da brisa das encostas para espalhar luz e alegria, ela chegou. Tinham casado por procuração.

Expectante, trazia consigo os sonhos que teceu com as estrelas em noites de verão. Na mala, o enxoval feito de linho, bordado com fios de seda, acautelava a esperança de uma vida feliz.

Tal como no filme “Os maridos de Elisabete”, também ela desejava arduamente um teto seu, para viver e cuidar. Engolida pela vontade de construir o seu refúgio, a casa era o expoente máximo que a vida lhe poderia proporcionar.

Mas assim que o viu esmoreceu. Deu conta da inquietação e desassossego que o acompanhava e rapidamente percebeu, pela angústia do seu olhar, que algo de sabor muito amargo guardava por contar.

Afinal, não conseguira a casa que houvera prometido! Tinha-lhe mentido! E dali partiriam para um quarto alugado numa casa de hóspedes. Os dias que se seguiram foram preenchidos de zangas. As noites, apesar de calmas e silenciosas, nunca tiveram estrelas e a lua nunca se vestiu de mel. A tempestade da deceção não deixou espaço para o amor e só passado um ano atiraram sorrisos um ao outro.

Por esta altura já tinham encontrado um casebre que ela transformou no seu palácio. Todo pintado de branco, não havia canto que não mostrasse a delicadeza do seu zelo. Cortinados, ornados com rendas feitas à mão, escondiam janelas arranhadas pelo tempo e os vasos que arquitetava, com recipientes roubados ao lixo, ostentavam flores de todas as cores como as do mais garboso jardim. Aromas doces pairavam no ar formando um manto de brilho e tranquilidade que cobria de beleza todo aquele recinto.

Tinha finalmente conseguido construir o seu lar, era a casa mais linda e vistosa de todo o musseque.