Cardus Edição 92, dezembro 2020
Professores e funcionários arregaçaram as mangas e a escola foi palco de muitas transformações. No chão pintaram-se setas, a verde e a vermelho, indicando os diferentes sentidos. À porta da escola e à entrada de todas as salas foram colocados dispensadores de desinfetante. Todo o espaço exterior se engalanou com cartazes coloridos recheados de indicações e informação para os alunos. As salas vestiram-se de novidades de acordo com as exigências atuais. Numa lufa-lufa contínua todos se envolveram na preparação do arranque deste ano letivo em combate ao Covid 19.
Tudo a postos, eis chegado o primeiro dia de aulas! Ansiosos por rever os colegas e amigos, depois de seis meses em casa, os alunos entraram com cautela, pé ante pé, bebendo em cada esquina as novas que os esperavam e, apesar de embrulhados numa teia de curiosidade e expectativas, conseguiram segurar a euforia do momento. Foram assim as primeiras semanas. Para grande surpresa dos professores, os alunos mantinham-se calmos, ordeiros e cumpridores, como se estivessem enleados por notas musicais numa melodia ritmada, harmoniosa e precisa.
“Fez-lhes bem o confinamento!”; “Há males que vêm por bem, vejam lá se eles não dão agora mais importância à escola?!?”; “Pois é, estavam fartos de estar em casa”; “Os miúdos estão mesmo calmos, vieram muito diferentes!” … Estes e outros comentários iam sendo badalados amiúde, num reconhecimento com prazo de validade pois, de repente, tudo mudou. Familiarizados com a nova realidade, os alunos descobriram outras fontes para brincadeiras: os dispensadores de desinfetante volta e meia rolam por entre mãos como bolas voadoras e servem muitas vezes para salpicar os colegas; os cartazes têm agora informações acrescidas que em nada se articulam com as anteriores; as setas desenhadas no chão passaram a restos de traços que indicavam a direção dos sentidos que nunca ninguém seguiu; pelo dia fora os gritos dos funcionários obrigando os alunos a colocar a máscara na cara, os mesmos que no intervalo a seguir voltam a tirá-la; as janelas das salas, agora abertas, passaram a ser portas de entrada e de saída e muitas vezes de partilha involuntária de materiais. À medida que a desordem se generaliza, o pessoal sucumbe de cansaço, tornando-se mais difícil a manutenção da ordem na escola.
Pandemia e Barafunda a nova realidade na escola!