Cardus Edição 84, 16-07-2020
De filamentos franzinos, como os de uma teia de aranha, pendia agora a vida da sua família. Os últimos anos tinham sido vividos sem a necessidade de contar tostões, nunca aprendeu a fazer um pé-de-meia e, por isso, não se precaveu contra as incertezas do futuro. De repente, sentiu-se perdida como se estivesse no meio de um deserto, agreste, sem a sombra das palmeiras que freiam o calor e enganam a sede, sem o sulco dos trilhos que prometem os caminhos de volta, apenas areia, areia ardente, bronzeada pelo sol de todos os dias. Queria tanto um porto de abrigo! Pressentiu o sufoco que seria a sua vida dali para a frente, teve consciência que perdera a bussola que lhe indicava o norte e a sorte era agora tudo o que lhe restava.
Naquela manhã, o branco cobria-a desde os sapatos até à touca onde escondia os seus cabelos negros. Sem brilho nos olhos, mas com a força que nunca parou de correr dentro de si, vestira a farda, ia começar a trabalhar como cozinheira no internato da cidade, um colégio só de rapazes com idades compreendidas entre os 10 e os 18 anos. O edifício, enorme, estendia-se, sem parcimónia, pela Serra da Nossa Senhora do Monte, interrompendo o convívio entre as mulembeiras senhoriais e os imbomdeiros seculares que, apesar de resignados, se confinavam no espaço que lhes restava com a nobreza de um império.
Foi-lhe reservado um quarto junto aos balneários, nos confins da cave da ala norte para se instalar com as meninas que trazia consigo, a filha e a neta. O filho adolescente ficou numa camarata com outros rapazes e as filhas mais velhas, por esta altura, já tinham arrumado as suas vidas. Apesar de ter um teto e a alimentação estar afiançada, não aguentou a dureza do trabalho. A labuta começava por volta das seis da manhã com a preparação dos pequenos-almoços, seguindo-se a preparação dos almoços, dos lanches e dos jantares. Só às dez da noite dava por terminado o rol das tarefas diárias que se repetiam de segunda a domingo, sempre debaixo de uma grande inquietude pois, não só tinha de garantir o número de refeições necessárias, como também lhe cabia a responsabilidade da guarda dos géneros alimentícios armazenados na despensa e que, apesar dos mil cuidados, não conseguia evitar os sucessivos desfalques.
Dois anos depois estava a caminho de outra cidade. Deixava para trás uma vida de sobressalto, não conseguia ter tempo para cuidar das suas crianças ainda de tenra idade, ambas com seis anos. A neta, sempre atrelada a ela, prendia-lhe os movimentos, a filha, mais independente, passava os dias a vaguear sozinha pelas redondezas a brincar com camaleões e lagartixas, seus amigos e companheiros dos longos dias. O quarto, escuro, sem janela nem porta para a rua, com paredes de um amarelo pardo a envolver as camas e o roupeiro, únicos adereços salpicados naquele reino silencioso, também não deu vida à saudade.
Novas aventuras lhe estavam reservadas. Muitas delas deixaram sequelas profundas na sua vida e na dos que a acompanhavam, mas também muitas foram preciosidades únicas, experiências incomuns como aquelas que só existem na trama dos filmes, dos livros ou do nosso imaginário.