Cardus Edição 83, 01-06-2020

Malisca

Em busca das origens (parte 2)


Duas semanas de barco, foi quanto demorou a viagem entre Lisboa e Luanda, sempre em companhia do azul do céu e do mar que, casados como se fossem um só, pareciam baloiçar continuamente numa dança atalaiada pelo vento.

Contrariada desde o primeiro dia em que os seus olhos se encontraram com a lonjura das terras africanas, confundiu muitas vezes as suas lágrimas com a água das intempéries que provocavam, com fúria, o choro das cascatas. Não conseguia ver beleza em nada ao seu redor, nem conseguiu afastar o manto que a tristeza começara a tecer e que a cobriu de angústia nos vinte e cinco anos que lá viveu.

África não se engalanava com manjericos à janela no calor do verão, nem os batuques nas sanzalas trinavam as melodias de uma guitarra. O cheiro da terra vermelha, depois das chuvadas tropicais, também não tinha o aroma das vindimas nem das cerejas. Tudo lhe era estranho!

A cidade que a acolheu, lugar onde os dias acordam e adormecem abraçados ao sol e às nuvens como amigos que brincam sem parar, não ofereceu encanto suficiente para a libertar dos laços que a prendiam a Portugal e por isso não conseguiu enganar as saudades da terra que a viu nascer.
Acompanhando o seu benfeitor, sempre muito empenhado nos trabalhos a que se tinha proposto, ocupava o dia a dia a tratar da prole, duas meninas e um rapaz, a luz da sua vida. Apesar do tempo passado, a diferença de idades não se esbateu, ainda não fez quarenta anos e o paizinho, nome carinhoso mimoseado por todos, já tem oitenta.

Dói-lhe o vazio que se grudou à sua alma e o inevitável acontece, fica grávida da última filha. Angustiada, não sabe o que fazer, nem o que dizer, esconde-se no silêncio que faz dos dias. Comprometida, aguarda o momento do julgamento… que só acontece catorze anos depois. Surpreendentemente, paizinho não faz perguntas, o seu coração continua aberto a irradiar o amor que sempre o agigantou e os dias seguem caminho, sem alterações de rumo ou direção.

Mas num dia morno, num dia quieto e sonolento, daqueles em que o sol cobre tudo de amarelo-dourado antes de se despedir, paizinho fechou os olhos e adormeceu para sempre. Tinha 84 anos.

(continua)