Cardus Edição 82, 16-06-2020
Fechei os olhos, deixei que as memórias esquecidas e aprisionadas no tempo se libertassem e, mansamente, como peças de um puzzle que compõem a amálgama intrincada do nosso passado biológico, comecei a encaixá-las, uma a uma, no entrecho da minha progénie. Viajei muito longe no tempo, até ao passado antes de mim e, como num filme panorâmico, onde a realidade se escancara e se perpetua numa tela, consegui vislumbrar a pobreza, igualmente repartida, nas aldeias, nas vilas e em todos os lugares de Portugal. Nessa altura, só os pés dos mais afortunados se albergavam em sapatos de couro ou botas de pelica, os dos mais pobres, um país inteiro, acomodavam-se na calosidade criada pelo contacto direto com a terra e com as pedras do chão que pisavam.
E foi descalça que a vi, uma criança de olhos grandes e curiosos, famulentos de saber, imaginando as letras e os números que se aprendiam na escola, mas que nunca pôde frequentar. Amofinada em afazeres que diariamente lhe eram destinados, não costumava brincar e, na hora de dormir, nenhuma história de contos de fadas lhe estava reservada para se deixar encantar. O medo, companheiro de muitas noites, atormentava-a até de madrugada quando o escuro se engordava de seres informes, criaturas assustadoras, que a faziam escorjar, como uma bola sem ar, debaixo do cobertor. À medida que a doçura da sua meninice ia sendo sugada pela dureza da vida, um forame enorme se abria no mais recôndito do seu ser, aquartelando os instintos aguçados nos sucessivos desaires, tornando-a exímia nas artes e artimanhas da sobrevivência humana.
Aos vinte anos carrega uma alma pesada e um coração cheio de espaços por preencher. Com uma voz de canário, presente da mãe natureza, guarda na mala a esperança, a alegria e a força de viver. Não tem vintém, está só, mas, para além de si tem duas vidas para cuidar, uma trá-la ao colo e a outra pela mão. Num país onde a fome é pertença de todos, não encontra mecenas que abrace a sua arte, e é a troco de uma refeição que vai cantando, aqui e ali, sem rumo certo, os fados do seu destino.
Vê o mundo desabar quando a mais pequenina adoece. Apesar das mil e uma mezinhas, rezas e xaropes, a menina segue a caminho do além, deixando um rasto de deceção, incredulidade, frustração, raiva e desgosto que, como um vento tempestuoso e repentino que sopra com grande fúria todas as direções, se transforma depois num rio louco a correr para o mar, inundando as margens de tristeza que a afogam em saudade.
Sem alternativas no pequeno mundo que habita, vencida pelos amores e desamores, aceita ir para África, deixando-se arrastar pelo seu benfeitor, com quem casa, um homem bom, apaixonado pelo encanto das suas melodias, viúvo, casa posta e 40 anos mais velho.
(continua)