Cardus Edição 69, 01-12-2019
De caminho para o trabalho, mesmo ao lado dos semáforos onde paro quase sempre, deixo os olhos vaguear pelo espaço que me rodeia. À frente, o cruzamento com dois cafés na esquina, um de cada lado. Nunca entrei em nenhum mas consigo sentir o frio dos azulejos das paredes de cada um deles. Também imagino o balcão com sumos Compal, fantas e coca-colas para além do pratinho com bolos e pastéis de bacalhau misturado com o ar enfastiado de quem está a atender do outro lado. Em cima das mesas, certamente, flores de plástico, caixas de guardanapos com publicidade à superbok, ou a outra marca qualquer. Costumo ver, encostados à porta, homens de olhar longínquo, sempre com um copo na mão. Querem, talvez, segurar o tempo, prolongar a ilusão da sorte que não tiveram ou desligar o filme das suas vidas.
Na outra esquina, em frente à paragem de autocarros salpicada de homens e mulheres de corpo dilatado pelos novos tempos, a escola. Outrora recheada da alegria, dos gritos e dos pulos das crianças está agora vazia, já não é uma escola. Não se vê ninguém mas o silêncio e o cinzento das paredes descascadas e esquecidas são o quadro desenhado pelo desencanto, pela monotonia e pelo desinteresse do que hoje se passa lá dentro. É um centro qualquer...
Antes do cruzamento, mesmo à minha direita, há um beco muito estreito com casas baixinhas pegadas umas às outras e com um muro muito alto à frente. Encantava-me olhar para lá. Uma fila de vasos floridos, junto ao muro, enchia de cor a passagem. Com flores muito variadas, desde brincos de princesa a malmequeres brancos e amarelos, dava gosto esperar pelo verde do semáforo para seguir caminho. Sempre de volta delas, regador na mão, lá estava ela, a velhota, a tratar as suas meninas.
Já se passaram alguns meses. O beco já não é o mesmo, está escuro e frio. A humidade escorre pela parede do muro e paira no ar a sensação amarga do vazio. As flores esplendorosas não estão lá, deixam agora ver a fila de latas que um dia foram vasos cheios de nobreza e de cor. Deixei de ver a velhota.
Malisca