Cardus Edição 72, 15-01-2020
Já não era muito cedo, mas a manhã ainda não tinha visto o sol. Os flocos de neve caíam lentos, uns atrás dos outros, e cobriam de branco casas, passeios e estradas. O vento frio, ao mesmo tempo que me enregelava a cara, fazia-me cócegas e obrigava-me a um insistente tira luvas, põe luvas, para limpar o nariz com um lenço de papel. Os carros circulavam devagarinho, de luzes acesas, e eu, em cada passada que dava, enterrava um pé.
Demorei cerca de meia hora a chegar à estação de comboio, ali tão perto, mas estava deliciada com todo o cenário à minha volta: as casas de madeira, os parapeitos rendilhados, as janelas engalanadas com estrelinhas, bonecos de neve e cavalinhos de todas as cores. As velas acesas, muitas delas alcandoradas nas floreiras junto às vidraças, deixavam ver o interior das salas decoradas com móveis muito clarinhos e típicos dos países do Norte. E, com grande deleite, também os espaços comerciais me encheram de surpresa e curiosidade. As lojas, pequeninas e acolhedoras, ofereciam calor, aromas, novidades e cor: umas com os Kanelbullar e café fumegante, outras com peças artesanais, únicas e diferentes.
Na estação o comboio chegou à hora marcada e, depois do stress das malas e dos sacos, já sentada e em viagem, deixei-me envolver pela expectativa da celebração do natal com uma família num país tão longínquo.
A casa toda em madeira, com muitas janelas, telhados altos e chaminés fumegantes transportou-me de imediato para o imaginário dos meus contos de criança. E, à semelhança da Alice no País das Maravilhas, também eu entrei pela porta da fantasia com tudo à minha volta a parecer irreal. Subi a escadaria a correr, descalcei os sapatos que, nestas paragens, por hábito, ficam sempre à entrada, e deparei-me com as crianças posicionadas em meio círculo, com os pais e os avós à sua volta, entoando uma canção de boas-vindas. Fiquei fascinada pois, em cada palavra cantada, parecia-me ver estrelas cintilantes a flutuar e anjos a dançar numa perfeita simbiose de magia. O cheiro do café e das bolachinhas de gengibre, ainda quentes acabadas de sair do forno, convidavam a entrar para a sala onde tudo já se encontrava pronto para a consoada. A primeira coisa que me saltou à vista foi a mesa: comprida, pintada de branco e com muitas velas acesas. Os pratos, os copos e os talheres estavam colocados diretamente em cima da madeira com hastes de folhas verdes que serpenteavam toda a mesa, de uma ponta à outra, abraçando aqui e ali um anjo, uma rena ou uma fada de Natal. À parte, mesmo ao lado, estavam os pratos e travessas com as iguarias da tradição: arenque e anchovas em conserva com os respetivos molhos, salmão fumado, batatas assadas no forno com natas, alho francês e queijo, pão feito em casa, queijo e manteiga. Como sobremesa apenas as bolachinhas de gengibre em forma de coração, groselhas e arroz cozido em leite. O vinho quente com canela e frutos secos, servido já no fim da refeição, deixou em mim a memória de um maravilhoso paladar.
Os presentes não foram os protagonistas da festa. Sóbrios e com particularidades únicas, traziam consigo mensagens de amor e bem querer. Chocolates, pequenos álbuns fotográficos personalizados, saquinhos de bombons feitos em casa e postais decorados com criatividade e beleza foram ganhos por cada um através de brincadeiras e jogos, partilhados à volta da mesa, noite dentro, numa alegria contagiosa.
Regressei de coração cheio com este Natal passado na Suécia.