Cardus Edição 91, novembro 2020
Deambulando pelas ruas, a sua casa de todos os dias, estendia a mão suja e vazia, a quem com ele se cruzasse, na esperança que algo lhe coubesse. Fugira do Kimbo, a muitas noites de caminho, e estava agora entregue à sua sorte na cidade de todas as promessas.
Mudo de nascença, apenas conseguia propalar desejos ou desconsolos com ruídos sibilantes. Por nunca ter ido à escola não sabia ler nem escrever mas, no seu mundo de pouco mais de onze anos, imperava a magia das crianças. E era com carrinhos de lata e arcos guiados por um pau que se imaginava a percorrer todos os caminhos desde a terra até ao céu onde brincava com as estrelas para depois, como se fosse uma cotovia de plumagem dourada, planar de nuvem em nuvem antes de descer e adormecer no colo da mãe que não tinha.
Só o frio e a fome de todos os dias o faziam acordar das suas fantasias. Andava sempre sozinho e nessas alturas era frequente vê-lo a passear a tristeza junto às montras das lojas, nas paragens dos autocarros ou à volta das esplanadas.
Um dia ouviu-se em toda a cidade um grande estrondo. Um estrondo que fez estremecer casas, portas e janelas. Num corrupio, as pessoas saíram para a rua assustadas, amontoando-se na praça em redor do acontecimento. Parte de um corpo ensanguentado, apenas com as pernas e as costelas onde o coração ainda latejava, jazia no chão.
Era o Mudo, estava-se em plena guerra colonial. A troco de alguns escudos, tinham-lhe pedido para fazer uma entrega no Banco Comercial de Angola, mesmo ali no centro. Não sabia o que transportava e a bomba rebentou-lhe nas mãos.
estão lá, deixam agora ver a fila de latas que um dia foram vasos cheios de nobreza e de cor. Deixei de ver a velhota.Malisca