Cardus Edição 88, 16-09-2020

Malisca

Lugares das nossas memórias


É um lugar antigo e com histórias por contar como muitos os que existem de norte a sul de Portugal. No meio de pinheiros, e com ribeiros por perto, viu, outrora, as casas multiplicarem-se encostadas umas às outras, ao longo da estrada, com as frentes viradas para o pinhal, até se aproximarem das fábricas e da estação ferroviária que lhe deu o nome. As pessoas, sempre de um lado para o outro, numa azáfama e correria de afazeres, davam tal vida àquele lugar que o mesmo se poderia assemelhar a um animal, com sistema nervoso, artérias e órgãos vitais, como John Steinbeck preconiza no seu livro “A Pérola” ao caracterizar as cidades.

Os comboios ainda continuam a correr por ali, mas já não param! As fábricas, essas, pouco a pouco, deram lugar a outras vidas que, não conseguindo conciliar as suas vontades com as dos novos tempos, também acabaram por perecer e apenas uma sobreviveu. Hoje a desolação está espelhada em todos os lados, em todos os cantos, em todas as esquinas, como um cartaz que ofusca o nosso olhar ao anunciar vestígios de um passado. Um passado de muitas memórias: quando as casas guardavam gente nos quintais e as paredes eram mimadas com tintas de cores alegres e frescas; quando os canteiros, as hortas, as flores e as janelas se escancaravam ao sol, quando se ouviam as risadas das crianças a brincar e a comer um naco de pão acabado de fazer; quando o leite era ordenhado no dia e se comprava diretamente a quem tinha as vacas…

As casas ainda estão lá, mas não são as mesmas, as portas estão fechadas,  lambuzadas de pó e de fuligem dos carros que passam; as hortas estão cheias de capim seco povoado por aranhas, papeis amarelecidos, plásticos sujos e outro  lixo trazido pelo vento; as janelas escondem-se atrás do silêncio à espera de nada; crianças não há e risadas também não, mas ouvem-se alguns lamentos, queixumes das mazelas engordadas pelo passar dos anos, daqueles que eram novos e não partiram e agora estão velhos, porque os que eram velhos, e por isso ficaram, há muito que já partiram.

É agora um lugar devorado pelo tempo, onde os esbulhos ainda perduram como se fossem a couraça de um animal, o resto que fica, depois da morte o vir buscar.

É uma estrada de passagem para outros lugares.