Cardus Edição 99, julho 2021
Dou comigo a pensar no dia de aniversário do Leonel. Lá vinha ele, meio cabisbaixo, meio alerta, trazendo consigo a irreverência dos treze anos e um gorro enterrado até ao pescoço, para esconder a cabeça que a mãe rapou como castigo. Portou-se mal na escola e foi-lhe aplicada a medida sancionatória de cinco dias de suspensão.
“oh professora! oh professora! hoje faço anos!”
Chamei-o para conversarmos um bocadinho, queria perceber a razão de tanta inquietude, tanto desequilíbrio emocional, tanta desorganização e desmotivação nas tarefas escolares, tanta raiva e azedume na relação com os pares…
Percebi algumas coisas, percebi que o Leonel nunca conheceu o cheiro a rosmaninho do colo que todas as mães exalam, que não sabe o que é chegar a casa e sentir os aromas de um bolo acabadinho de fazer ou da carne a assar no forno e a mesa posta para o jantar. Também não sabe o que é ter uma cama só para ele, num quarto com secretária para arrumar cadernos e livros e poder estudar. A realidade do seu dia a dia cabe num espaço exíguo e escuro onde os quadros estão pintados com as cores das discussões das contas por pagar.
O Leonel chumbou o ano! E o próximo, nada de novo lhe trará!