Cardus Edição 89, 01-10-2020

Malisca

O Leonel


O Leonel tem doze anos e está no 7.º ano. Moreno, alto e esguio, com a máscara pendurada pelo queixo, sempre numa correria doida pelos espaços de recreio da escola, leva o tempo a amofinar os colegas para depois fugir disparado como um foguete só parando ao toque de entrada. Nas aulas não se consegue concentrar, inventa histórias para explicar a falta de folhas nos livros e nos cadernos que, de quando em vez, se passeiam na mochila. O estojo, lá dentro, só contém pedacinhos de borracha desfeita que serão desferidos, como tiros certeiros, à cabeça dos colegas, rapidamente e em milésimos de segundo, quando o professor deixar de o ter no seu ângulo de visão. Depois de instalar o burburinho e as habituais risadinhas da turma, com arte de malabarista consegue acoroçoar o tiroteio para depois, enquanto o professor escarafuncha culpados, se endireitar na cadeira com ar bucólico como um promissor académico a convencer a inocência.

Os dias sucedem-se e com eles o Leonel repete as suas tropelias colecionando castigos vários que não nutrem qualquer mudança no seu comportamento: suspensão das aulas; limpeza de salas; intervalos sentado numa cadeira ou repetição escrita das regras de sala de aula.

À tardinha, quando a escola acaba, o Leonel volta para casa, vai com o boné enterrado até ao pescoço e, sem pressa de chegar, carrega a tristeza gorda que deixou por umas horas à entrada do portão.

O Leonel perdeu os pais num acidente e aguarda agora a entrada numa qualquer instituição para onde tem medo de ir.