Cardus Edição 73, 01-02-2020

Malisca

A descoberta


A tarde estava silenciosa e calma. Acolhia o sol que se entretinha a pintar o casario de um amarelo ocre realçando a beleza daquela chitaca tropical. Em contraste com o vermelho da terra batida, as folhas verdes das mulembeiras, imponentes e senhoriais, traziam poesia à paisagem e faziam jus ao estatuto real que os Sobas desde sempre lhes conferiram.

Eu tinha à volta de cinco anos e, muito atenta, escutava a minha mãe que, emocionada, conversava com uma vizinha. Enquanto falavam, segurei num camaleão que tentava trepar a árvore e coloquei-o no meu braço. Devagar e à medida que ia subindo, enrolava a cauda, comprida, e ficava da cor da minha roupa, o que me deixava enternecida com aquela magia acreditando que o camaleão brincava comigo e se coloria só para mim.

A conversa entre as duas continuava sem pressa e eu, sempre atenta, sem desgrudar, esperava que terminasse para seguirmos caminho, como prometido, até ao rio onde iria apanhar girinos com uma lata vazia de leite em pó Nido.

A dada altura senti abrir-se em mim a torneira das dúvidas do mistério da vida. Um emaranhado de questões foram-se amontoando no meu pequeno cérebro à medida que o novelo da conversa se ia desfiando. Estava em choque, confusa e incrédula! Tamanho foi o rebuliço nos meus cinco sentidos que tudo deste dia ficou gravado em cada partícula do meu ser: o cheiro adocicado das flores da mulemba, o cântico dos pássaros na dança do acasalamento, a brisa morna que não me tirou o frio que senti por dentro, o sabor amargo da angústia que me invadiu depois de ouvir a confirmação da minha pergunta!

A minha mãe e a vizinha falavam de alguém que acabara de falecer e nesse instante as cores do meu mundo empalideceram: acabava de descobrir a existência da Morte.