Cardus Edição 90, 16-10-2020
A Sónia não come! A Sónia não come! Repetia a mãe a rir-se na cozinha, divertida, enquanto a pequenita chorava, engolindo as lágrimas e o ranho que deslizavam pelo rosto, a correr escada acima, atrás dos 4 irmãos, apressando-se para ocupar um lugar à frente do prato de sopa e do naco de pão. A Sónia ainda não tinha três anos, era a mais nova da família, o cabelo claro por pentear enchia-se de borbotos pelo meio como se fossem caracóis.
Estavam todos em casa da avó porque o pai, cansado de contradições e desmazelos, saiu um dia e nunca mais voltou. A mãe lia livros policiais de manhã à noite, balançando-se numa cadeira, e à noitinha raspava-se para a rua sem dizer para onde. Manhã cedinho lá ia a avó para o trabalho que tinha conseguido na peixaria dos congelados. O ordenado, magro, juntamente com a pensão de viúva, dava para pagar a renda da casa, mas ficavam por ralar as dívidas que se iam acumulando na mercearia. A avó vivia o dia a dia numa luta perdida para arrimar a filha e os netos, mais os outros dois filhos menores que também estavam a seu cargo, o que perfazia um agregado familiar de nove pessoas ao todo. Desesperada, mas não rendida, foi ao Beiral dos Pobres expor a sua sorte e desde então beneficiou de uma panela de sopa e dois pães grandes que à tardinha eram o gáudio das crianças.
Como trepadeiras que crescem sem parar, as dívidas foram-se espraiando pelas mercearias do bairro até ao dia em que bateram à porta. Dois homens e uma carrinha aprontam-se para penhorar os bens existentes, a mando do tribunal. São as crianças que abrem a porta, ficam confusas e amedrontadas quando lhes explicam que vêm buscar o frigorífico, o fogão e as camas. As idades estendiam-se entre os onze e os três anos e nesse momento deixaram de ser crianças.
Os dias daí para a frente coloriram-se de cinzento e as noites engoliram todas as estrelas do céu. Passaram a viver num edifício muito grande e escuro, longe uns dos outros. As escadas que subiam a correr até à cozinha, depois das brincadeiras no quintal, eram agora imagens doces escondidas no coração.
À noite adormeciam a ver a avó chegar com o saco da sopa e do pão e depois sonhavam com ela a entrar porta dentro e a levá-los para casa.