Cardus Edição 85, 01-08-2020

Malisca

O CHICO


Durante a infância e a adolescência o tempo anda devagar, seis anos parecem uma eternidade. E foi durante uma eternidade que vivi no Huambo, cidade instalada no coração de Angola, quando ainda não havia máquinas de lavar roupa e eram as mulheres que o faziam: as lavadeiras. Tinha à volta de onze anos. A minha casa, sempre cheia da agitação dos muitos hóspedes que a habitavam, transbordava de conversas, roupa estendida, batatas por descascar e muitos, muitos afazeres.

Os dias começavam cedo, logo aos primeiros raios da manhã as lavadeiras preparavam a saponária para as grandes trouxas de roupa que era preciso lavar e nunca me esqueci do dia em que uma delas, assim que chegou e antes de iniciar as tarefas, começou a desenrolar a surpresa que trazia consigo no meio dos panos, junto ao peito, e que pretendia trocar por algumas moedas. O que assim sucedeu!

A minha mãe, logo que o viu, ficou possuída de encantamento e um formigueiro crescente começou a invadi-la, deixando-a desassossegada com cócegas no estômago e com a respiração cortada pelo nervoso miudinho. Estava deslumbrada com tão exótica beleza: um macaco bebé quase tão pequenino como uma múcua, o fruto do imbondeiro, e que, naquele instante, passou a chamar-se Chico.

Longe dos ramos das árvores, o seu agasalho e abrigo, longe do seu amparo, o colo da progenitora a quem tinham arrancado sem complacência, o macaquinho tremia sem parar e os olhos, muito redondos e esbugalhados, falavam de pânico e de desproteção. Trémulo, encolhido e indefeso, tinha agora o seu destino a ser traçado pela avidez dos desejos e dos quereres dos humanos. Sem perceber nada e sem nada ter feito para tal, ia viver numa selva de pedra, ia viver no meio de pessoas. O instinto dizia-lhe que nunca mais sentiria o cheiro da terra a ser molhada pela chuva e que nunca mais nenhuma brisa da manhã lhe daria a indicação da fruta madura a balançar nos galhos das árvores para ser colhida. E, por isso, mostrou-se pouco tranquilo e nada conformado com a sua nova morada onde nem sequer teria de lutar, com os seus semelhantes, pela conquista do território ou dos alimentos. Esta inquietude valeu-lhe a sentença de ficar acorrentado para que não intentasse na procura do caminho de volta às suas origens.

O tempo foi passando, o Chico gastava os dias empoleirado na sua casota sem interagir com ninguém. Por vezes, esquecido da corrente, de pouco mais de dois metros, que o prendia ao pilar, saltava para baixo com intenção de se ir embora, acabando por andar em círculos até se cansar. Depois, voltava lá para cima e ali ficava com o olhar parado no vazio a que o tinham destinado.

Um ano e meio mais tarde, quando o Chico dava indícios de alguma resignação, há uma grande reviravolta no seio da minha família e uma mudança de cidade foi a decisão encontrada. Eu tive de ficar até terminar o ano letivo. Ao Chico foi-lhe reservado um novo desafio.

Entre a casa onde fiquei alojada e o liceu onde estudava existia um grande descampado de terra batida. Salpicado de vegetação e de poças de água sempre que chovia, era o meu caminho de todos os dias. E foi precisamente ali, naquela manhã cedo, cinzenta e molhada, quando me dirigia para a escola, que sucedeu algo inesperado: na minha direção vinha um homem, a pé, com uma bicicleta pela mão e uma grande chiadeira. Era o Chico que, ao ver-me, desatou numa gritaria de aflição e de socorro. No momento em que nos cruzámos, o Chico salta-me para o colo, eufórico de alegria, agarra-se a mim com toda a força enquanto o homem, num abrir e fechar de olhos, o desprende e o leva consigo.

Estática, em choque, e, sem nada poder fazer, fiquei de olhos postos na imagem que se desenhava à minha frente e que se colou para sempre na minha memória: a bicicleta, guiada pelo homem, a pé, seguindo pelo trilho, atrás, virado na minha direção, puxado pela corrente presa ao selim, em grandes saltos e aos guinchos, tentando correr para mim, o Chico.

Um aperto no coração fez soltar lágrimas que correram pela cara sem parar. E, quando o silêncio se fez sentir, quando o Chico não era mais do que a miragem de um ponto muito longe, comecei a andar, devagar, até chegar ao liceu. Levava comigo, na bata branca, as marcas de lama das quatro patitas do Chico.