Cardus Edição 71, 01-01-2020
Tinha dezanove anos e o coração cheio de sonhos. Chegara na ponte aérea Luanda/Lisboa na leva dos retornados mas nem sequer conhecia o país! Vinha por um mês ou dois, até passar o perigo de uma independência conturbada e fazer companhia a alguém que acabara de sofrer infortúnio.
Saiu do aeroporto acreditando que tinha desembarcado no paraíso: imagem criada pela mãe, que, contrariada desde o primeiro dia que chegou a África, fantasiava as memórias da sua terra natal. Todos os dias contava histórias maravilhosas que desembrulhava da sua tristeza, das saudades ou da esperança de um dia voltar.
Arrepiou-se com a aragem fria, vinha de um clima quente e mal agasalhada. Olhou em toda a volta à procura dos jardins floridos, das janelas cheias de manjericos, das portadas senhoriais, das ruas limpas que nem um brinquinho e das cores alegres dos prédios de que tanto sua mãe lhe falara! Lembra-se como se fosse hoje, apesar de ter sido há mais de 40 anos, do aperto no coração e do sabor da deceção. Cansou-se de procurar, nos dias que se seguiram, o Portugal tão amado de sua mãe.
Até hoje nunca o encontrou! Contudo, aprendeu a amar a terra dos seus antepassados, aprendeu a sonhar com as amendoeiras em flor, com as planícies douradas, com o cheiro do mosto e do bagaço das azeitonas, com o vento zangado subindo à pressa a encosta das serras depois de uma viagem pelas praias de mar azul...
Não o troca por país nenhum!