Cardus Edição 78, 16-04-2020
Gosto de conversar com a minha avó! É com ela que destranco o baú onde se escondem os meus medos e incertezas. É com ela que falo quando o azul do céu me foge do olhar e uma nuvem cinzenta se espraia em mim com a sua tristeza. É com ela que desembrulho antigas aventuras e histórias da família. Histórias que ela viveu lá longe. Lá, no outro lado do mundo onde nunca fui. Lá, na metade do planeta, onde há mais água que terra e onde é inverno quando aqui é verão! Lá, muito longe também no tempo. Há muitos anos atrás. Quando o tempo tinha mais tempo, porque tudo, ou quase tudo, era feito com as mãos, e também com o coração. Quando se saía à rua sem se estar ligado a alguém por computador ou telemóvel. Quando se tinha que esperar uma semana pelo correio para ter notícias de um ente querido ausente. Quando os sacos das compras eram de pano ou de papel. Quando os supermercados eram espaços pequenos onde o sr. António, ou o sr. João, nos guardava o pão e nos mandava recado pela vizinha a avisar da chegada do leite. Quando o mundo era diferente! Quando não se corria tão depressa em busca do amanhã e o tempo tinha mais sabor, como acredita a minha avó. Também tinha dissabores, confidencia-me com o seu olhar seguro e transparente! E é dedilhando as cordas da sua memória, com pormenores bordados a lacre, que me conta um dos grandes dissabores que viveu quando estava grávida do segundo filho. A primeira gravidez correra bem, tinha tido sorte, mas não queria arriscar novamente. O país, ainda a sacudir-se dos horrores deixados por uma luta em prol da independência, via-se agora a braços com outras lutas que punham em causa a sobrevivência da população: havia carência de tudo. Sem médico assistente, sem possibilidade de fazer exames e ecografias, uma maternidade lotada e parcos recursos, uma grande falta de alimentos básicos e um filho pequenino, ela e o meu avô decidiram que o bebé iria nascer em Portugal.
Papéis tratados, cinco meses de gravidez e malas prontas, aguardava pacientemente a autorização de saída. Mas a notícia chegou depressa, sem cerimónias e sem contemplações: requerimento indeferido. A minha avó tinha 21 anos e, sem o saber, integrava o recenseamento militar, a qualquer momento poderia ser chamada para servir o país como o foram algumas das suas amigas e colegas da época. Apesar do meu avô ser português, ela não usufruiu dos direitos desta cidadania, afinal tinha nascido por lá e as leis eram aquelas.
O meu avô acabou por vir à mesma a Portugal, com o pequenino, não só em busca de mantimentos mas também para que o menino pudesse conhecer as avós e passasse algum tempo a alimentar-se melhor, com fruta variada e legumes frescos. Em lágrimas, a minha avó ficou a vê-los partir, mentalizando-se que voltariam dentro de um mês e que esta viagem era imprescindível para a saúde do seu menino. Não ficou sozinha, tinha o seu bebé a crescer dentro de si. No entanto, foram 4 semanas amargas e angustiantes, em que cada dia mais parecia uma semana e cada semana teimava em fazer-se sentir mais que um mês. E só quando, finalmente, chegou o dia do regresso tão desejado, os seus olhos voltaram a brilhar e o seu coração voltou a ficar gordo de alegria.
Três meses depois, passados com a inquietude de poder ser chamada para a tropa, a minha avó acabou o tempo de gravidez. Com dores de parto normais, que tiveram início por volta das seis da tarde, recusou-se a ir logo para a maternidade, com a desculpa de saber das longas horas que ainda demoraria a chegada do seu bebé, que não sabia ser menino ou menina. Protelou até quase à meia noite, hora do recolher obrigatório, e só nessa altura aceitou deslocar-se para a maternidade, onde não conhecia ninguém e onde teria que entrar sozinha.
Mas a sorte, mais uma vez, foi sua companheira, nunca a abandonou e cerca de duas horas e meia depois, a parteira de serviço, uma cubana, já quarentona, com uma fita no cabelo, bata azul e lábios sorridentes gritou: é um niño, um niño!
E foi assim que a minha avó trouxe ao mundo o seu segundo filho, o meu pai.