Cardus Edição 81, 01-06-2020
Era uma bebé gorda e palradora. Cabelo muito negro e espetado, fazia lembrar um pequeno buda. Antes de nascer, a descoberta da sua vinda ficou marcada pela incredulidade da surpresa que aviltou o arroubo da novidade, como se dela resvalassem ondas de fatalidade ou mal-andança.
Ainda a sua existência se pronunciava no futuro, como um bosquejo que o tempo se ocuparia de desenhar, já o fantasma da contrariedade se adiantara, e se fixara, como um fardo pesado, difícil de carregar.
Alheada do infortúnio que se desprendia de si, deu-se a conhecer numa madrugada fria, ao mesmo tempo que, noutros lugares do mundo, mais a Norte, acima da linha do Equador, o sol dourava as searas e o calor presenteava os camponeses com cestas de fruta madura.
Em vez de cânticos de glória e de exaltação à magia da vida, ouviu, baixinho, queixosos gemidos que se despregavam a rodos de uma inefável tristeza, como se fossem água de um rio a correr para o mar.
Não se lembra de que poesia era feito o amor por ela. Mas recorda-se da ausência de colo e de sentir na liberdade das brincadeiras, muitas vezes sozinha debaixo da mesa até adormecer, a esteira do seu verdadeiro abrigo.
Também não se lembra de nenhum lugar, ou casa, onde a vontade de ficar se sobrepusesse à vontade de partir. Na ânsia de encontrar o que não sabia procurar, arremessava todo o seu ser para os recantos do amanhã, na esperança que desígnios da Providência a ajudassem a encontrar os códigos e os caminhos da serenidade. Habituada a cirandar de um lado para o outro, amiúde com a mãe e irmãos, em busca de garantias que permitissem a sobrevivência dos corpos, nunca conseguiu criar raízes em lugar nenhum. O tempo vivido em cada espaço não foi suficiente para tecer as amarras que prendem as almas e, por isso, não conhecia o sabor da saudade.
À medida que os anos iam passando, maior era a distância que a separava do encanto das estrelas. E, muitas vezes, ao olhar para dentro de si, encontrava um fosso escavado até ao interior dos seus ossos. Os sentidos das memórias escapavam-se-lhe pelo rendilhado do vazio que a preenchia, como se fossem líquido a correr pelo meio de uma peneira ou como se fossem vento a querer segurar-se no seio de uma brisa.
Não sentia nada! Era um fruto oco. Um fruto gerado pelas forças da natureza, mas deformado.
Era filha da solidão e do desejo: tinha faltado o amor.