Cardus Edição 75, 01-03-2020
Quando a chuva dá tréguas e o sol, devagar e de mansinho, começa a espreitar até brilhar com todo o seu esplendor espalhando-se pelo kimbo, paira no ar um cheiro a terra molhada, único e forte, que só África nos consegue presentear. Aos poucos a aldeia, até ali recolhida e silenciosa, vai tendo vida. As crianças saltam de dentro das kubatas, com carrinhos de lata e bolas de trapo e é vê-las numa azáfama correndo umas atrás das outras com os seus gritos de alegria e euforia quando ganham a vez. O tempo das chuvas nestas paragens é curto, há que aproveitar a água enviada pelos deuses e guardá-la nos vyombos de plástico que o mzungu ofereceu. Com sentido de comunidade e interajuda, as mulheres, com os seus bebés às costas, trazem o pilão cá para fora e, num ritmo sincronizado em movimentos e cantares, duas a duas, transformam o milho na fuba que lhes irá alimentar o corpo e a alma durante muito tempo: o tempo que o tempo precisa para fazer crescer e amadurecer novas maçarocas. Pirão, peixe seco com óleo de palma e gimboa, é a refeição igual de todos os dias. Ginguba com açucar é o deleite das crianças, maboques e loengos a fruta da época.
Ir à loja, a mais perto da sanzala, por vezes a quatro ou cinco quilómetros a pé, é sempre um dia especial. Sal, açúcar, peixe seco, cigarros sem filtro e pouco mais, são as compras do mês para quem tem parcos rendimentos. Mas a festa faz-se nos reencontros, quindas à cabeça, cigarro com a ponta acesa para dentro da boca, as mulheres, barulhentas e atarefadas, trocam entre elas vicissitudes e querelas, enquanto os homens se embalam num copito de vinho, ao fundo da mercearia, cogitando sobre as ingremidades do dia a dia.
À noite, as estrelas e a lua abraçam a escuridão e distribuem cores com tonalidades de ouro e prata que as folhas das árvores ora guardam ora emprestam num bailado musicado pelo vento. Pela madrugada, em dias de cerimónia fúnebre ou religiosa, os Xinganjes dançam à volta da fogueira, tronco nu e saias de tiras de sisal, com máscaras pintadas de branco e vermelho, numa ovação cantada, acompanhada pelos majestosos batukes em oferenda aos deuses.
Nesta África, onde a selva não era de pedra, os telemóveis, as televisões e os gps ainda não existiam, as estradas não tinham alcatrão e o mundo tinha longe e tinha distância, ficou a minha infância e juventude. Estas são as minhas recordações de África, esta é a África minha.