Cardus Edição 74, 15-02-2020

Malisca

A Sua Menina


Era a sua menina. Com as costas da cadeira para a frente, sentava-se no meio do quintal a vê-la a saltar, a correr atrás das galinhas e dos gatos que dormitavam ao sol. Era assim que passavam as manhãs e as tardes, nas horas lânguidas e doces, daqueles dias que pareciam segurar a chuva para a menina brincar. Companheiros e cúmplices das brincadeiras, enchiam o dia com jogos de faz de conta. Ora princesa, ora lagarto, porquinho da Índia ou sereia do mar, só os dois entendiam a fórmula da magia e só os dois conheciam o código secreto que transformava quissondes e salalés em sardões voadores. Mas um dia a menina correu para o quintal e a cadeira estava vazia. Lá fora no portão, mulheres paradas, com os filhos às costas e as quindas à cabeça cheias de loengos, lochas, tabaibos e maboques para vender no mercado, olhavam incrédulas umas para as outras, mussitando a partida do seculo e, entre um cantado otcho, otcho muen, ominavam entre elas a tristeza do xindele nunca mais lhes vir a comprar nada.

Era conhecido por todos, tinha chegado da metrópole muito novo e na mala trazia uma vontade tamanha de construir caminhos que levassem e trouxessem sonhos gordos de verdade. Dizem que o seu coração era de ouro e que não pertencia a esta vida. Irradiava a luz do misticismo... e, sem galões ou insígnias, partilhava com todos a essência da sua sabedoria. Do trabalho floresciam desenhos complexos, que realizava à mão, daqueles que hoje só os computadores sabem fazer. Da dedicação e resiliência resultou a obra, pertinente, grandiosa, real! O seu nome, contudo, não ficou na história, mas a sua história ficou para sempre no coração da sua menina.

A menina era a sua filha, tinha 4 anos e ele 84.