Cardus Edição 79, 01-05-2020

Malisca

A outra margem


Toda a escola se enchia de alegria e novidade. A algazarra do reencontro, depois de uma separação de quase três meses, era a música de fundo a compor um cenário pintado de risos, conversas e abraços. Todos tinham histórias para contar!

Foi assim que encontrou os alunos do décimo ano do Curso Tecnológico de Animação Cultural no primeiro dia de aulas. Conhecia a maior parte da trupe, mas a sua atenção prendeu-se na última carteira do canto esquerdo da sala. Corpo alcatruzado, cabelo claro a tocar as costas, olhos de um azul sem cor, comunicava a sua ausência através do vazio que exalava do olhar. Era aluno novo na escola. Na apresentação não quis falar de si, tão pouco se interessou em ouvir os outros. As raparigas, inquietas pelo desejo de o conhecer, viam o entusiasmo refreado sempre que se aproximavam dele. Sem alimentar diálogos, deixava transbordar o desalento que o habitava sem que o conseguisse suster ou açaimar.

Os dias foram passando e o Pedro continuava sem existir, teimando em se esconder de si próprio e dos outros. Sem motivação, não evidenciava interesse por nenhuma das disciplinas.

Mas um belo dia, quando a professora de geografia pediu aos alunos, os temas do trabalho a apresentar à turma, o Pedro perguntou, no final da aula e em privado, se poderia falar sobre rochas. Surpreendida, e embora consciente de que as rochas não integravam o conteúdo programático da disciplina, a professora acedeu.

Chegada a hora da apresentação, todo ele era vibração como se fosse primavera e brotasse vida por todos os poros. Trazia consigo a coleção de fósseis e as amostras das rochas que, meticulosamente etiquetadas, ostentava no seu relicário. Os quinze minutos de que dispunha não chegaram tendo ocupado todo o tempo da aula a falar do mundo que o atraía. Conseguiu prender a atenção de todos e a professora estava boquiaberta com tanto conhecimento, interesse e paixão. Percebeu que o caminho deste aluno estava traçado e que o curso em que os pais o tinham inscrito de nada lhe serviria para o futuro. Mas também percebeu que aquele ou outro curso do ensino secundário seria a ponte que o levaria à outra margem, à margem certa para seguir caminho.

Foram três anos de luta para que o Pedro conseguisse um olhar, ainda que esguio, para as outras disciplinas e pudesse completar o 12º. Ano. Passaram-se alguns anos, o Pedro licenciou-se em Geologia, especializou-se em várias áreas e hoje faz parte de uma equipa internacional de investigação e estudos paleontológicos.