Cardus Edição 76, 16-03-2020
Fruto de um amor sem estrelas, Maria, de sua graça, nasceu na Beira Baixa, num dia frio de novembro, no rescaldo da 1ª Guerra Mundial. Não foi alegria recebida nem almejada e ninguém lhe cantou poesia ou amor. O sabor da rejeição pressentiu-o muito cedo, ainda não tinha nascido. A mãe não soube impor-se aos olhares inquisidores, por isso a escondeu e transportou embrulhada na angústia e no desespero da sua gravidez indesejada.
Só começou a andar com três anos, as sopas de café, em substituição do leite que não havia, definharam-na e não lhe conferiram a moldura e a destreza suficiente para se erguer e caminhar no tempo que era devido. Ia muitas vezes para a serra com a avó e ficava na cesta enquanto as cabras, empoleiradas nas pedras de granito, redondas e grandes, se esgueiravam com arte e graciosidade para chegarem às folhas mais viçosas dos arbustos. Uma delas, a Estrela, quando a ouvia chorar, corria até à cesta e aninhava-se para lhe dar de mamar.
A fome, o frio e a rudeza de trato, ensinaram-lhe as mais refinadas artimanhas de sobrevivência. Com oito anos já caçava pardais que depenava e assava para conseguir a refeição do dia. Como tantas outras crianças da sua idade andou apenas um ano na escola. Tinha que ajudar a mãe, doente com tuberculose, e começou a trabalhar na Quinta dos Albuquerques, para os lados de Castelo Branco. A engorda dos perus para o Natal era feita com ovos cozidos, manjar que dividia a meias entre ela e os galináceos, às escondidas da patroa, o que lhe valeu uma tareia depois de descoberta a façanha.
Com a morte da mãe e sem família que a acolhesse foi num orfanato que entregou todos os seus sonhos de menina. Depressa se fez mulher e, aos dezoito anos, rumou a Lisboa, cidade dos encantos, onde a esperava uma família rica para servir.
Queria ser enfermeira mas resignou-se ao destino e aceitou a sua sorte.
Esta é a história de Maria, uma história igual à de tantas mulheres portuguesas que, sem futuro e sem oportunidades, entregaram a sua vida à vida das famílias que serviram. Cuidaram e zelaram da casa que nunca foi sua. Foram “Mães” e “avós” dos filhos e dos netos que nunca foram seus.