Cardus Edição 100, agosto 2021

Malisca

A Caixinha do Tempo


Sozinha, no quintal da casa já muito vivido, povoado de plantas e árvores com tantas histórias, olhava estonteada para as miragens que lhe caíam em catadupa à sua frente umas atrás das outras. De pé, mas trémula, no canto junto à buganvília vermelha, não tinha certezas do que via e nem sequer percebia se estava a delirar. Afinal, não tinha consciência que eram as suas memórias a sair de si e a partir para parte incerta. As memórias de uma vida que durante anos e anos se esconderam e aninharam em todos os cantinhos, uns secretos, outros não. Escapuliam-se agora pelo seu olhar já turvo e por todos os poros da sua pele rugosa, empurradas pela falta de espaço no corpo que há muito começara a encarquilhar.

Todos os dias, a seguir ao almoço, logo depois de arrumar pratos, panelas e tachos, ia com o cestinho dos novelos e agulhas de crochet sentar-se à sombrinha da buganvília vermelha. Entrelaçava ponto por ponto, numa repetição de mais de mil, com muita resiliência, muito amor e muita paciência, saboreando todos os momentos em que as linhas se atreviam a dar forma à toalha que haveria de ornamentar a mesa da ceia de Natal, o evento mais importante do ano e merecedor de grandes preparativos.

Depois dos filhos vieram os netos, a luz da sua vida! Não havia fim de semana sem almoçarada. Ao chegarem, sempre atrasados e esfomeados, corriam alegres, espalhando risos e beijos, até à cozinha, ao encontro dos odores tão familiares da feijoada, do borrego assado ou do arroz-doce, ainda quente, pintado com canela.

Era assim a sua vida. Uma vida cheia.

Cheia dos afazeres, cheia das cores, cheia das alegrias e dos cheiros que a caixinha do tempo misteriosamente lhe roubou.