Cardus Edição 104, dezembro 2021

Malisca

Mariana de Jesus


Ainda jovem, Mariana de Jesus deambulava e ziguezagueava, como se os caminhos a percorrer fossem labirintos traçados num lugar baldio, seguia para lá e para cá sem ter destino certo e sem pressa de chegar … Caminhava só e convencida de nada. Fortalecida pela firmeza da rebelião esperando encontrar o sentido da vida na jangada da sua meninice, continuou viagem sem nunca o encontrar. Uma viagem longa que o tempo não deixou de acompanhar em todos os apeadeiros por onde a viu sair e entrar.

E, tal como os homens que se apoderam das mulheres, aqueles que embrutecidos pela vida se encontram ainda estacionados em civilizações pré-históricas, também o tempo se apoderou dela deixando-lhe marcas a correr pelo corpo como prova da sua existência. A pouco e pouco foi-se encrustando na pele, nas veias e nos ossos, espraiando-se por todos os lados como o café ou o vinho quando se espalha na toalha depois de entornado.

Os seus pés, agora gretados, erguem e sustentam um corpo a lembrar uma árvore despida de folhas, flores e frutos gritando de sede. Os cabelos soltos, caídos pelos ombros, ainda guardam o brilho do luar roubado às águas do mar. E à noite, enquanto dorme, Mariana de Jesus casa com homens belos e jovens, de sabor a fruta madura e doce. Em sonhos renasce e experimenta a magia da vida em todo o seu esplendor. E, por algumas horas, acredita estar viva num corpo ainda jovem. Acredita poder viver tudo o que não viveu. Mas ao despertar, ainda meio confusa entre o sonho e a realidade, não consegue segurar a emoção e deixa-se esconder debaixo dos lençóis, procurando enclausurar-se no lugar mais profundo de si.

Mariana de Jesus ainda não terminou a jornada da sua vida e, de carteira ao ombro, máscara na cara, casaco e chaves na mão, lá vai mais um dia abrir a porta do escritório, responder aos e-mails, controlar as encomendas do patrão e certificar-se que tudo será entregue na hora certa.

 Até um dia.