Cardus Edição 96, abril 2021

Convidado

Pedro Coutinho
Dinamizador do projeto RIA SEM LIMITES

Praticar a vela, praticar a inclusão - um exercício de cidadania.


Por circunstâncias do acaso, vejo-me há alguns anos ligado a uma atividade de vela ligeira e em particular num projeto[1] cujo objetivo primeiro foi o de criar condições para a prática da modalidade de vela para pessoas com deficiência física. O tipo de embarcação e a modalidade em particular foi sendo referida por vela adaptada. Ainda que não corresponda a terminologia formal, na linguagem comum é vulgar o seu uso, principalmente pela simplificação de linguagem nomeadamente na interação com pessoas que não são do meio específico da vela. Formalmente, o tipo de embarcações têm uma designação própria: Hansa.

Do ponto de vista das preocupações com a exclusão ou segregação a que a sociedade tem vindo a dar crescente importância, decorre o desígnio, a que todos nós nos associamos, de construirmos uma sociedade mais inclusiva ou seja, o mais  possível não deixarmos ninguém de fora no acesso e na fruição dos mais variados recursos que a sociedade cria, seja para satisfazer necessidade básicas seja para o bem estar genericamente enunciado, seja acesso físico seja acesso intelectual! Pretende-se aqui passar uma reflexão, usando a experiência pessoal no domínio da vela adaptada, à luz desse desígnio maior!

Desde logo pondo um olhar crítico sobre a embarcação e tentando encontrar nela motivos para a designação da atividade da vela adaptada: a embarcação não tem nada da adaptada. São variados os exemplos de pessoas que, tendo alguma afetação da sua mobilidade, uma vez embarcados navegam sem qualquer limitação. Variados são os exemplos de pessoas com perturbações do foro do desenvolvimento intelectual que uma vez embarcados fazem a sua aprendizagem ao ritmo e da forma como fazem outras atividades no seu dia-a-dia.

Se em 95% das pessoas a embarcação é usável, na sua configuração de raiz, tal como por velejadores “normais”, é evidente que nada há ali de adaptado. O que se me apresenta é um recurso, uma embarcação, com conceção para uso universal, isto é, inclusiva. De facto assim foi o desígnio da arquitetura[2].

O que terá proporcionado a vulgarização da terminologia vela adaptada terá sido a motivação em que foi pensada a utilização desse tipo de embarcação para as pessoas com mobilidade reduzida por exemplo. Com essa motivação vamos sem dúvida ao encontro de anseios de uma população significativa e com sucesso. No entanto vai depender do nosso desígnio inclusivo na organização e no desenvolvimento de atividades, proporcionarmos o espírito inclusivo na utilização deste recurso que em si é inclusivo, para fomentarmos de facto o clima inclusivo numa vertente de desenvolvimento pessoal em toda a população que se encontra nas atividades de um clube (prossecução da ética desportiva!). Proporcionar e fomentar o uso desta embarcação por todo o tipo de pessoas, independentemente da sua condição é um passo. Funciona muito bem por exemplo pela socialização: para todos mas mais para um cadeirante que por regra está limitado a um certo conjunto restrito de colegas. Fazendo com que os horários dos treinos dos vários escalões coincidam, proporciona-se que em terra, durante a preparação das embarcações e depois na arrumação, todos os atletas se encontrem, os das embarcações Hansa, dos Laser, dos Optimists, os dos Vouriens, etc. Os mais velhos e os mais novos. Nestes, geram-se por vezes situações deveras curiosas. Alguns, pela sua tenra idade, não estão ainda habituados a ver pessoas diferentes! Os mais extrovertidos disparam à queima roupa “porque andas em cadeira de rodas?” ou “porque falas assim?”, outros dirigem-se-nos, em voz baixa “porque ele anda assim?”… E aqueles que, depois de quebrado o gelo, não largam a colega cadeirante querendo ajudar em tudo?... ficam depois a saber que oferecer os préstimos é a simpatia normal, mas que depois não deve fazer coisas para além do que a colega ‘Margarida’ lhe peça, mesmo que seja empurrar a cadeira de rodas! Amiúde assiste-se a momentos de formação pessoal muito poderosos! Em todos os sentidos de todos para todos.

Para todos a experiência do meio aquático suscita uma grande diferença de sentir o meio ambiente. Os desafios serão permanentes, haverá sempre mais um degrau a vencer, mas o primeiro é muito impactante! Por vezes para esse primeiro embarque há um caminho a percorrer, pode não ser no primeiro dia de convívio com a água. Se calhar vai ser preciso uma ou mais sessões a ver colegas a navegar, sentado num trapiche baloiçante, num sossego como aprecia, depois de uma ou duas duvidas mas perguntadas muitas vezes, que nos cativa não nos deixa desistir! E um dia sem que nada o fizesse esperar, aquele jovem reservado que não permite aproximação… olha-nos nos olhos e diz querer ir “contigo”!... Recordo aqui momentos com populações com perturbações do espetro do autismo.

Por isso, pandemia vai-te embora! e espero que quando voltar ao assunto diga, já de forma habituada, “a minha experiência na vela inclusiva!”

 

[1] Academia de Vela Sporting Clube de Aveiro

 

[2] “O Sailing for Everyone Foundation Inc é a associação sem fins lucrativos que está na origem da filosofia Hansa Sailing, com a missão de promover o movimento para a inclusão. Os produtos Hansa Sailing são da Universal Design, Hansa Sailing Class Association e os eventos estão abertos a todos, e os clubes e programas que usam os veleiros Hansa são encorajados a ser inclusivos.”
In http://www.s4e.org/philosophy