Cardus Edição 93, março 2021
… é a pior mulher do mundo. É a única que implica comigo, que me chateia, que não fica satisfeita com coisas que faço ou não faço. Além disso, tem certas maneiras de fazer certas coisas que não me parecem nada certas, mas ela insiste. No fundo, ela é a única que eu tenho de aturar, enquanto as outras são sobretudo simpáticas comigo.
A minha mulher é também, para mim, a melhor mulher do mundo. Afinal, é ela que faz por mim coisas que nenhuma outra faz. Se eu tiver um problema grave, é ela que larga tudo e fica do meu lado. E mesmo no dia a dia, ela faz por mim coisas correntes, comuns, mas importantes… enquanto as outras, é normal, estão na vida delas. Ela é para mim a melhor do mundo, mas isso é muito fácil de esquecer. Porquê?
Quem é que se lembra dos dentes que não doem? Mas um dente que nos dói, mesmo que pouco, faz-nos a vida em farrapos. O mesmo com a minha mulher: só quando” me” sinto ameaçado é que “a” sinto.
Nós somos, antes de mais, máquinas de detetar perigos. Por isso, logo que um perigo – basta um ligeiro incómodo – nos afeta, disparam os sinais de alarme e ficamos em estado de alerta, se não mesmo em estado de guerra. É o que se passa quando a minha mulher faz alguma coisa que me incomoda.
Para me dar conta do que ela faz de positivo, é necessário um esforço que me leve acima da linha comum da vida. A vida normal é silenciosa, diria mesmo muda, enquanto qualquer perigo nos desperta e pica.
É claro que podemos desenvolver processos interiores de reparar no que por si mesmo não se faz notar. Isso é cultura, viver acima da linha da natureza. Mas isso tem de ser cultivado, construído.
Há indicadores disso: pedir “por favor”, dizer “obrigado” ou “desculpa” e mesmo elogiar algum ato com particular significado. São comportamentos de nível superior, por isso têm de ser aprendidos.
- Isso não é pieguice? Afinal vivemos juntos há tantos anos, ela conhece-me bem, já sabe do que eu gosto e não gosto.
Desculpas de mau pagador. É mais fácil queixarmo-nos do que nos incomoda do que mostrarmo-nos gratos por aquilo que… nem sequer notamos. Para superar a natural banalização das coisas boas, porque as menos boas nunca são banais, é necessário elevarmo-nos da simples natureza às alturas da cultura. Quanto mais natural, mais bruto; quanto mais culto, mais polido. (Atenção: culto é diferente de instruído, de escolarizado.)
E não é só com a minha mulher. É com todos: com os meus filhos, os meus colegas, o meu chefe, o meu patrão… E com os políticos… E com…
Quando me queixo ou quando me mostro grato, digo muito pouco de quem me queixo ou a quem estou grato, digo sobretudo algo muito importante sobre mim mesmo: sou um bruto ou sou um homem (ou mulher) educado.
A cultura também é isto, o modo de ser que num ser humano o eleva para lá da sua natureza animal e os recursos que num certo meio social estimulam e ajudam os seres humanos a seres… humanos. Porque animal, qualquer um é; a humanidade do ser humano é que precisa de ser cultivada.
P.S. – Eu também sou, é claro, para a minha mulher, o pior homem do mundo. Oxalá seja também o melhor.