Cardus Edição 97, maio 2021

Cardus


Não ter medo de avançar!


Todos temos um pai e uma mãe. Regra geral são as pessoas a quem mais nos sentimos ligados, pelo menos enquanto crianças, aqueles de quem mais recebemos, nem sempre o que queríamos ou pensávamos, mas o que eles acham que nos devem dar, sejam meios materiais, imateriais ou educacionais. É normal quando crescemos ficarmos ligados mais a um do que ao outro. A mãe é a grande referência para alguns, o pai para outros. No meu caso, foi o pai.

Morreu cedo. Era uma pessoa humilde, aprendeu a ler e a escrever quando esteve na tropa. Não teve uma vida fácil, quis que os filhos tivessem uma vida melhor e, naqueles tempos, a única solução era pô-los a estudar. Para quem morava no mato, ter filhos a estudar, mesmo que na escola primária, era complicado. Havia que os mandar para longe, eventualmente para casa dum familiar, ou então para uma casa particular. E aqui havia que pagar, coisa dificil para quem já tinha um ordenado magro.

A história começa agora. Um dia o pai disse ao filho que iam falar com o diretor do Instituto Industrial de Nova Lisboa onde este estudava. A razão – pedir uma ajuda monetária para os estudos do filho. Este ficou surpreendido com tal iniciativa, não estava a ver o pai a ser recebido por um diretor dum instituto, nem a vê-lo com desembaraço suficiente para isso. Também não acreditava em milagres, a escola era para se aprender, não para dar dinheiro a quem quer que fosse.

Independentemente daquilo que o filho pensava ou achava, a realidade é que um dia lá seguiram pai e filho para a conversa com o diretor. O pai com o fato de domingo vestido, o mesmo e único de uma série de anos e o filho provavelmente limpo e asseado e com o melhor que tinha para vestir. Para a conversa foi necessário viajar, eventualmente foram necessários alguns dias até ao encontro. Tudo se perdeu na memória até ao momento em que pai e filho se encontram no gabinete do diretor, lugar onde o filho nunca tinha pensado entrar, nem tão pouco passar pelo corredor de acesso. A partir daqui tudo ficou registado. O diretor, sentado mas despido do ar arrogante com que os alunos o conheciam, ouviu o pai contar a sua história e explicar a razão porque ali se encontrava. Contrariamente ao que o filho esperava, não interrompeu quem se queixava nem mostrou qualquer azedume na conversa, nem indicou a porta de saída a ninguém. Pelo contrário, fez uma ou outra pergunta simpática e por fim disse que sim, que tinha um fundo de apoio a estudantes, com o qual poderia prestar, desde já,  a ajuda que lhe era pedida. E havia também um programa de bolsas ao qual o filho se podia candidatar para o ano lectivo seguinte, desde que tivesse boas notas. Aqui foi a vez do filho brilhar, nesta parte não havia qualquer problema, foi o que o pai orgulhoso ouviu o filho dizer. O diretor chamou alguém da secretaria e logo todo o processo ficou clarificado, a burocracia definida, provavelmente haveria uns papéis a enviar. Pai e filho regressaram a casa, o filho ainda não acreditando bem no que tinha sucedido, o pai contente por se ver livre duma despesa que lhe levava quase 50% do salário.

Por um simples acreditar que é possível, por uma atitude de quem não tem nada a perder, uma conversa impensável de dez minutos, mudou por completo a vida duma família. O mais velho conquistou uma bolsa que lhe permitiu acabar os estudos e os irmãos puderam inclusivamente vir estudar para Portugal.

Antigamente pais e filhos falavam mais por actos do que por palavras. A lição foi bem aprendida pelo filho. Não devemos dar nada por adquirido, não devemos ter medo de avançar, muitas vezes é importante pormo-nos de pé e metermo-nos à estrada. O filho cresceu, nunca esqueceu a lição e aplicou-a algumas vezes, quer na vida profissional, quer pessoal. E tal como o pai também foi bem sucedido senão em todas pelo menos na maior parte delas.

Pequenas grandes histórias que nos vêm à memória nesta fase da vida em que o futuro não nos pertence e o presente pouco nos diz.