Cardus Edição 96, abril 2021

Cardus

Estou a mexer os dedos dos pés

Quando era jovem, havia uma fase difícil da vida que era o “ir à tropa” ou, com um ar mais pesado, “ir para a guerra”. Havia uma coisa que se chamava guerra colonial para a qual marchava tudo o que era homem quando atingisse a idade dos vinte anos. Através dum requerimento e por apresentação duma justificação razoável podia-se adiar a guia de marcha, mas só por alguns anos. Quando digo toda a gente, não era bem assim, uma pequena minoria conseguia fazer a “guerra” por cá (para o que era preciso uma coisa chamada cunha) e outra minoria ainda mais pequena, na altura própia ausentava-se do país e não regressava. Estes, hoje, têm o nome de “objetores de consciência”, na altura eram rotulados oficialmente de  “refratários”.

Fruto da época, também fui à tropa. Não fui de barco, porque já estava lá, poupei uma viagem ao estado. Fui incorporado em Angola, fiz três meses de recruta e mais três meses de especialidade. As habilitações académicas de cada um definiam a classe em que se ingressava no exército. Os menos letrados iam para praças (soldados), os meios letrados para sargentos e os mais letrados para oficiais. Esta regra servia apenas para o ingresso, após a recruta e especialidade, um pretenso oficial podia descer para sargento ou mesmo praça caso não revelasse estatura ou competência para tal. Como tinha habilitações suficientes fui para oficial e assim me mantive até ao fim,  para minha grande surpresa e alívio porque, de comandante, ao contrário de louco de que todos temos um pouco, não tinha (e continuo a achar que não tenho) nada. No dia do juramento de bandeira, lá estavam, no meio da multidão que assistia à cerimónia, os pais orgulhosos e emocinados, a ouvirem a voz do filho e de mais um batalhão delas, jurando um texto préviamente decorado, donde se destacavam as palavras “defender a pátria”.

Um miúdo imberbe e medroso, que não sabia o que era dar ordens, habituado até à data apenas a obedecer e a fazer o que lhe mandavam, ficou naturalmente atemorizado ao constatar que ao fim de seis meses poderia vir a “comandar” um grupo de homens, ser responsável por eles (pior, pela vida deles) e levá-los a matar para não morrerem.

A decisão veio então para espanto de muita gente. O miúdo ofereceu-se para os Comandos. Os Comandos eram a tropa especializada da guerra colonial que disputavam o título de elite com os rivais para-quedistas. Tudo o resto era considerado tropa fandanga. Frequentar um curso de comandos era coisa dura, só os mais fortes física e psicológicamente conseguiam chegar ao fim. De tempos a tempos faziam-se provas de seleção, os mais inaptos iam sendo sucessivamente eliminados e, como era de esperar, um dia lá chegou a vez do miúdo franzino e medroso.

A realidade é que o miúdo entretanto tinha aprendido a lidar com o perigo e com a guerra e sentia-se agora preparado (ou pelo menos mais habilitado) a fazer aquilo a que era obrigado e de onde não podia fugir. Não queria ser comando, queria apenas estar mais preparado para fazer a guerra e tinha conseguido esse objetivo. Aprendera, também, a ser corajoso. Mas, …

Todos os quarteis tinham o seu serviço de suporte, no caso dos Comandos a denominada CCS (Companhia de Comandos e Serviços): a chamada retaguarda que não ia à guerra apenas tinha de criar condições para os que iam e assegurar os serviços básicos do quartel. Aqui inseriam-se as oficinas, a secretaria, a cozinha e uma secção muito especial, a denominada secção de justiça … e foi aqui que o miúdo que tinha vindo para se preparar para  ir à guerra acabou por ir parar. E aqui fez a tropa toda, a chamada tropa de secretaria, quase quatro anos a instruir processos, alguns dos quais nada fáceis devido aos dramas que envolviam, não só entre militares como também entre estes e civis.

Quase quatro anos no CIC (Centro de Instrução de Comandos) deram para se conhecer muitas histórias de guerra, algumas de fazer arrepiar mesmo aqueles menos impressionáveis. Os comandos eram máquinas de guerra, especializados em guerrilha. Neste tipo de guerra o inimigo não está a vista, ou está escondido à espera, ou já não está mas deixou o terreno armadilhado. A armadilha mais comum era a mina anti-pessoal, a tal que não pode ser pisada sobre pena de se ficar sem a perna. Não morreu muita gente na guerra colonial (relativamente), a maioria das mortes deveu-se a acidentes de viação. O grande drama da guerra colonial foram os mutilados, os que ficaram sem pernas ou com uma a menos.

A frase que dá o título a esta crónica foi proferida por um capitão Comando. Tinha acabado de chegar ao quartel evacuado por um helicóptero. Estendido na maca, com um ar sorridente, foi com ela que respondeu aos camaradas que vieram a correr vê-lo e lhe perguntavam pelo seu estado. Já não tinha a perna mas ainda a sentia, podia inclusivamente mexer os dedos dos pés.

Tempos depois o capitão voltou ao quartel já com uma prótese no lugar da perna. Mantinha o mesmo espírito combativo e otimista, mas apresentava um ar mais pesado. Um dia deve ter-se apercebido que já não mexia os dedos dos pés.