Cardus Edição 95, março 2021
Do Hospital dos Capuchos a Algés vai-se em duas etapas. A primeira, a pé, até ao Cais do Sodré; a segunda, de comboio até Algés.
Aprendi, ainda jovem, que devemos aproveitar as adversidades para nos reforçarmos para o futuro. Ir marcar, pessoalmente, uma consulta externa ao Hospital dos Capuchos não é propriamente uma adversidade, apenas um incómodo que se tem de fazer. Mas, já agora, uma vez que tem de se fazer, porque não aproveitar a oportunidade para dar um pequeno passeio turístico por Lisboa: não está muito frio, o tempo está encoberto, mas o sol, sempre que pode, aparece.
À saída dos Capuchos o Google Maps diz-me que para se chegar à praça da Figueira se desce pela rua Santo António dos Capuchos e andados duzentos e poucos metros se segue pela rua do Telhal. Muito bem, a informação chega, o telemóvel já não é preciso, vou então ruas abaixo, olhos nos prédios, olhos também na calçada, é preciso estar atento aos desníveis do empedrado e a uma ou outra pedra mais saliente.
Os prédios variam entre o pintado de fresco, o que já não sabe o que é uma pintura há um ror de anos e a pura ruína emparedada. A mesma diversidade estende-se às varandas, uma estão decoradas com flores, outras cheias de lixo. Há pouca gente na rua, estão todos confinados em casa, o movimento de carros é diminuto. Vantagem para quem trabalha, os trabalhadores camarários vão fazendo o seu trabalho, as pessoas não atrapalham e o risco de serem atropelados é bem menor.
Tenho alguma dificuldade em posicionar locais nos meus mapas de memória. Não admira, assim, que fosse parar à Avenida da Liberdade quando na minha cabeça era certo estar a entrar na Praça da Figueira. Sem problema, oportunidade para visitar e fotografar a estação do Rossio vazia e sem carros a empatar o enquadramento fotográfico.
Finalmente na praça da Figueira, onde o plano do momento era apanhar o 15E que ao longo da 24 de junho me levaria a Algés. Verifico, entretanto, que este elétrico famoso, afinal, só circula manhã cedo e ao fim da tarde. Um contratempo? Não! Uma oportunidade para estender o passeio pedestre até ao Cais do Sodré.
Sigo tranquilamente pela rua da Prata até à Praça do Comércio. As lojas de roupas estão fechadas, os pequenos restaurantes apenas com o postigo aberto para o takeaway, as lojas de relógios e canetas finas estas sim de portas escancaradas para os clientes que não aparecem, nomeadamente aqueles de calções e máquinas a tiracolo. Os mendigos continuam nos seus postos habituais, dão agora mais nas vistas porque há menos gente na rua, mais vazios também me parecem estar os espaços onde caem as moedas.
Na praça do Comércio pode-se correr à vontade à volta da estátua e até circular pelo meio das esplanadas pois as mesas e cadeiras estão empilhadas a um canto. Não se choca com ninguém. D. José e o seu cavalo estão sozinhos, sentem a falta das multidões que lhes sorriam e tiravam fotos, ou talvez não.
O Tejo continua com as águas sujas, junto a ele sigo até ao Cais do Sodré, onde chego dois minutos depois da saída do comboio. Não há pressa, há que aproveitar para dar uma volta pela estação. Uma senhora numa banca a um canto vende enchidos, queijos e mel, tudo produtos de Trás-os-Montes incluindo o mel que é de Montesinho. Provavelmente o primeiro cliente do dia comprou-lhe o queijo amanteigado mais caro e um frasco de mel. É preciso apoiar os pequenos vendedores neste período de crise e pandemia.
Finalmente no comboio, longe vão os apertos nos transportes públicos. Não há gente em pé, há espaço na cadeira ao lado para a mochila, tenho ainda uma fila vazia até chegar ao próximo passageiro. O comboio já não faz trac, trac, como fazia antigamente, agora desliza silencioso pelos carris que o conduzem ao destino.
Há muita arquitetura moderna e antiga ao longo da 24 de junho: logo à saída do Cais do Sodré, a sede da EDP, prémio Valmor; em Alcântara temos agora o novíssimo Hospital da CUF; passamos pelo MAAT de cúpula sem mirones, sinal destes tempos de pandemia; o museu dos Coches com estes cheios de saudades do antigo espaço onde estavam mais aconchegados e integrados; Os icónicos Jerónimos, mais arejados, livres dos inúmeros autocarros de turismo que lhe empestavam o ar e lhe tiravam a vista para o rio; e finalmente, à esquerda, o CHAMPALIMAUD CENTRE FOR THE UNKNOWN em franco progresso com um segundo bloco em construção, por este andar um dia ocupa o espaço todo até Algés.
E o passeio acaba então em Algés donde se sai para a rua por um túnel escuro com alguma gente e muita sujeira. O quiosque de jornais e revistas está aberto, as bilheteiras também, os funcionários de olhos mortiços veem quem chega, quem vai, o vento também, vai e vem, apenas o cheiro pestilento se mantém. Cá fora não se veem vendedores de castanhas assadas, a barraca das farturas está fechada, o espaço está livre, vai-se a direito até ao parque onde uma coisa grande com quatro rodas me espera para me levar a casa.