Cardus Edição 94, fevereiro 2021

Cardus

Virtualidades

Esteve em teletrabalho toda a manhã, almoçou a correr, e pediu ao pai para o levar ao aeroporto. Na viagem o teletrabalho continuou, ora em reunião com muitos, ora em conversa a dois, telemóvel na mão e phones nos ouvidos. A língua não era sempre a mesma, umas vezes em inglês, outras numa língua falada mais a norte. Qualquer delas não dava para perceber, nem havia interesse em escutar, ele falava e o pai, calado, conduzia. Chegados ao parque do aeroporto, a reunião foi interrompida momentaneamente para um abraço de despedida, e lá foi ele com os auscultadores nas orelhas a falar sozinho, o telemóvel agora nos bolsos pois as mãos eram precisas para segurar o saco de viagem. No aeroporto, enquanto esperava pelo avião que o levaria ao centro da Europa, onde também não era o seu local de trabalho, tinha planeado preparar uma reunião que teria com o chefe ainda ao fim desse dia. Até ao avião levantar voo, haveria tempo para tudo isto e eventualmente mais alguma coisa.

Tempos modernos estes em que podemos dispersar os sentidos pelo mundo. A proximidade deixou de ser física, podemos estar acompanhados por quem vive muito longe e longe de quem temos por perto. Podemos não ver nada ao nosso lado, mas vermos o que se passa em lugares bem distantes. Podemos ter uma conversa animada com a família dispersa pelo mundo, podemos partilhar o que fazemos. Podemos fazer quase tudo, apenas nos falta - por enquanto - o contacto físico. Lá virá o dia em que poderemos estender as mãos e tocar em quem está distante. Não tocamos, mas as sensações irão ser igualzinhas às do contacto físico, não haverá diferença alguma. E quem diz tocar com as mãos também pode dizer outras coisas, como aquelas mais íntimas, que se fazem a dois: tudo igual, com o mesmo sabor, a mesma intensidade …

E aquela palavra que se chama saudade, que me dizem que só existe na língua portuguesa, vai desaparecer definitivamente.