Cardus Edição 91, novembro 2020
Se há fenómenos da natureza que aprecio, um deles é, seguramente, uma boa chuvada. A água caindo do céu, escorregando pelo telhado abaixo, caindo no chão, criando pequenos rios efémeros que descem para onde é possível descer, todo este movimento e os sons que produzem, são momentos de vida que gosto de apreciar. Mesmo de noite, onde apenas se ouve e não se vê, é um prazer ouvir a música que vem de fora, mesmo que tenha interrompido um sono reparador. Uma boa chuvada acompanhada duma boa trovoada, isto, então, é um verdadeiro êxtase audiovisual.
Regra geral as pessoas citadinas não gostam da chuva. Gostam de ter água nas torneiras, mas não gostam da chuva. É uma chatice, o guarda chuva, os pés molhados, a roupa que não seca, o tempo escuro, as corridas para o autocarro ou para o automóvel. A ausência da luz habitual torna-as depressivas. Quando a chuva vai e o sol vem, então sim, tudo tem mais brilho, mais alegria, as depressões desaparecem.
Em África, pelo menos num planalto interior de Angola, chovia muito durante as “chuvas”, chegava-se a ter mais de duas semanas consecutivas sempre a chover. Uma chuva miudinha, permanente, que não enchia os ouvidos de música, apenas alimentava as poças das ruas e avenidas, no tempo em que o asfalto ainda não era conhecido. Aparecia aqui um novo elemento, a lama, que entrava por todo o lado, que se agarrava aos sapatos, que deixava marcas no corredor, por mais que se limpassem à entrada. E que atolava os camiões que circulavam pelo interior. Passei muitos dias a ver chover, a sonhar ou a estudar e também a andar à chuva, quer de motorizada quer a pé. A roupa também me secou muitas vezes no corpo, não é verdade que provoque constipações, quando era miúdo não sabia o que isso era: as temperaturas também eram amenas, a roupa molhada não incomodava muito e o corpo não resfriava.
Só recentemente tive ocasião de presenciar uma chuvada tropical. Estive dois meses à espera dela, só perto do fim da estadia alguém, com domínio sobre a natureza, achou que a merecia. E então, a dois ou três dias do regresso, à tardinha, levanta-se uma grande ventania, as árvores abanam por todo o lado e o céu, que estava claro, fica de repente escuro, e caem então sobre a terra, não gotas de água, mas autênticos baldes cheios, chuva pesada e forte, que parecia estilhaçar as chapas de zinco do telhado. E como a primeira chuvada dá início à época das chuvas, é infinita a quantidade de bicharada que de repente ganha vida e tudo invade. Nos trópicos não há guarda-chuva. Anda-se de T-shirt, quando chove refresca-se, quando acaba, a camisa seca naturalmente e a vida continua. Vida simples a dos trópicos.
Para quem gosta de correr, a chuva também não é um empecilho mesmo neste espaço no hemisfério norte. Desde que a chuva não seja gelada e o vento não muito forte, é agradável fazer um bom jogging à chuva, a sensação de fresco parece fazer bem aos músculos. Há também menos gente na rua e nos parques e, quando se chega a casa toma-se um bom banho quente, o que é muito agradável.
Quem também gostava de chuva era Beethoven. Bem protegido, não perdia uma boa chuvada, eventualmente era a chuva que lhe trazia inspiração para as suas maviosas sinfonias.
A que propósito veio esta crónica? Muito simples, entrámos em tempo de chuvas, há dias caiu uma boa chuvada, esteve um dia inteiro a chover, infelizmente para mim, no dia seguinte, a partir do meio-dia, o tempo “melhorou”, começou a aparecer o sol, as pessoas animaram, a “Barbara” foi passear para outro lado e, coisas que só os velhos sentem, veio-me uma certa nostalgia dos tempos em que via chover através da janela do meu quarto em Nova Lisboa na Angola colonial.