Cardus Edição 88, 15-09-2020

O meu telemóvel

O meu telemóvel está sempre comigo. É meu amigo, facilita-me a vida, põe-me em contato com a família e amigos, acorda-me às horas que quero e regista os bons momentos da minha vida. Sabe tudo de mim, mais do que qualquer outra pessoa, mesmo das mais próximas. Ele só sabe de mim, mas tem um chefe que sabe de todos.

Sabe quem são os meus amigos e destes aqueles com quem mais falo e troco algumas confidências. Recentemente tomou a iniciativa de chamar pessoas para falarem comigo sem lhe ter pedido ou mandado. E bloqueia a tecla do cancelar por mais que eu martele em cima dela. É um maroto, o meu telemóvel.

Um dia saí de casa e esqueci-me dele. Quando reparei nisso, já não me apeteceu voltar a casa para o apanhar e andei o dia todo sem ele. Um dia de liberdade. Saiu-me caro, quando cheguei a casa tinha a família toda à minha espera e com cara de poucos amigos.

Recentemente preocupa-se com a minha saúde. Avisa-me sempre que tenha estado em contato próximo com alguém a quem foi detetado o Covid. E manda-me fazer o teste para continuarmos descansados ou não.

Quase que diria que faz parte de mim. Um dia vai fazer mesmo. Alguém vai abrir-me a cabeça e colocá-lo dentro. Por essa altura já é tão pequenino que não se vai notar nada, nem um pequeno altinho para acariciar de vez em quando. Penso em falar com alguém e ele imediatamente faz a chamada. E já não vou precisar das orelhas para ouvir nem da boca para falar. A comunicação vai fluir diretamente da minha cabeça para a cabeça do outro ou da outra. Uma maravilha! E vai morrer comigo, mentira, felizmente morri antes de ele fazer parte de mim.