Cardus Edição 86, 16-08-2020

Aplique-lhe uma raiz quadrada

O Caminho de Ferro de Benguela tinha em Nova Lisboa as suas Oficinas Gerais. Era aqui que era mantido todo o material circulante da companhia, mais de uma centena de locomotivas e um número infindável de vagões. As oficinas estavam bem apetrechadas e localizadas a este da cidade onde, juntamente com as casas dos funcionários, ocupavam um bairro inteiro conhecido como “O Ferrovia”. Estávamos em Angola, colónia portuguesa, anos 60.

Os maquinistas eram os funcionários que conduziam as locomotivas. Estavam divididos em categorias. Entravam pela mais baixa e iam fazendo carreira pela tabela acima. Para subirem de escalão tinham de realizar provas, entre elas, uma teórica. Tal como a maior parte dos funcionários, não eram muito instruídos, naqueles tempos ter a 4ª classe era tão valioso como hoje ser bacharel numa especialidade qualquer.

Um dia, um maquinista, atingido o tempo de serviço necessário, foi convocado para o exame para subir de categoria. Correu-lhe tudo bem, apenas com uma pequena exceção na prova teórica onde falhou o exercício da raiz quadrada. As esperanças da promoção desvaneceram-se quando saíram os resultados e o maquinista constatou que tinha reprovado. A falha da raiz quadrada tinha sido fatal para as suas aspirações. Ainda choramingou aos superiores, incluindo o engenheiro responsável pela parte teórica, mas não havia volta a dar, o veredito estava lançado, haveria mais oportunidades de promoção, na próxima era bom que viesse com a raiz quadrada bem estudadinha.

Talvez como compensação foi-lhe atribuído um trabalho mais leve, deixaria de conduzir comboios, passava a maquinista de testes, ficaria a trabalhar perto de casa onde doravante poderia ir dormir todos os dias.

Como maquinista de testes competia-lhe testar uma locomotiva sempre que era revista ou reparada. Não era bem testar, era mais conduzir, os testes eram realizados por técnicos, chefiados por um engenheiro, que se distinguia dos restantes porque era o único que não tinha fato macaco vestido e tinha as mãos sempre limpas e asseadas.

Um dia o engenheiro da raiz quadrada e o maquinista encontraram-se numa sessão de teste. A máquina saiu das oficinas e começou a rolar pelos carris. Tudo a correr bem, mas de repente a locomotiva parou. Saltam todos para o chão há que descobrir o que teria emperrado a máquina. O cilindro, as válvulas, tudo foi inspecionado, aparentemente estava tudo em ordem. Voltas e mais voltas mas a máquina não andava. Ao fim dum certo tempo o grupo, desanimado, parou para refletir. Olharam uns para os outros, os olhos do engenheiro e do maquinista cruzaram-se. Os do engenheiro não escondendo uma certa angústia e desespero, os do maquinista, pelo contrário, tranquilos e serenos, acompanhados ainda por um sorriso irónico percetível no canto dos lábios. E foi então que se ouviu a frase que correu célere ao longo da linha e que chegou todos os lugares do interior angolano onde houvesse um ferroviário:

- Ó Sr. Engenheiro! Aplique-lhe uma raiz quadrada, pode ser que a máquina ande!!!