Cardus Edição 85, 01-08-2020

Os sons do Sabugueiro

O melhor som do Sabugueiro é o do silêncio. Não chega ao silêncio puro, porque na encosta da serra há sempre água correndo, que produz aquele som relaxante, suave e natural, que sobressai quando todos os outros se calam.

Mas há outros sons no Sabugueiro. E sons naturais, sem qualquer artefacto eletrónico a produzi-los. Logo pela manhã, ouve-se a música de dezenas de badalos chocalhando, das cabras que encaminhadas pelo pastor e alinhadas pelo cão seguem em direção à serra, a caminho do pasto que as vai alimentar e assegurar o modo de vida de quem delas depende. E naturalmente a mesma música ouve-se ao entardecer no retorno do cortejo ao curral. E há o som das horas e das meias-horas, devidamente marcadas pelo sino da igreja. E as horas são repetidas passados alguns minutos provavelmente para aqueles que chegaram tarde à primeira contagem.

Os cães do Sabugueiro não produzem sons, como fazem os do bairro onde moro sempre que dou uma volta pacífica pelo quarteirão. Não ladram, nem mesmo aos forasteiros coloridos que lhes devassam regularmente as ruas e o adro da igreja. Chegam-se a quem chega, acompanham-nos por momentos à espera de qualquer coisa, mais de comida que propriamente de festas. Não esperam indefinidamente, a experiência ensinou-lhes a medida do tempo para lá do qual já não vale a pena esperar. Não estão presos os cães do Sabugueiro, vivem nas ruas, em liberdade, não têm coleira nem ninguém para os levar a passear e dar-lhes bolinhas escuras ao jantar.

Mas o melhor som do Sabugueiro acontece ao domingo. É anunciado por um estridular repentino do sino da igreja que acorda qualquer forasteiro que por volta das dez horas ainda esteja a dormir. Repara-se então que a porta da igreja está aberta e de dentro começam a sair sons celestiais cantados por um coro de vozes empenhadas, sons que ouvia quando pequeno, dos quais ainda sei as letras de cor. E a música celestial espalha-se pelas ruas, não sei se chega ao céu para onde é dirigida, sei que atravessa as pedras escuras e frias e penetra nos ouvidos de quem está recolhido. Quando a música para, segue-se a ladainha de alguém que debita palavras velhas, importantes talvez para quem tem de viver no Sabugueiro. Ergue-se novamente o coro e o som do órgão, a Aleluia entra agora pelos ouvidos de quem escuta e se maravilha com os sons do Sabugueiro.

Quando a missa acaba, fecham-se as portas e o som volta ao da água em movimento. Mas não por muito tempo. Gente alegre e feliz emerge duma das ruas, abrem as portas do carro que assistiu em lugar privilegiado ao concerto celestial, atiram as malas e os corpos para dentro, recostam-se eufóricos no interior da máquina poluidora. Ao ruído das gargalhadas dos felizes, junta-se agora o roncar dum motor potente, que ecoa pelas ruas de pedra, que ataca a estrada principal, que vai subindo a serra até finalmente desaparecer lá no alto.

São muitos os sons do Sabugueiro, o melhor mesmo é o do silêncio, o som da água correndo, o som permanente da quietude do Sabugueiro.