Cardus Edição 84, 16-07-2020
Se Amália fosse viva teria neste momento 100 anos. As comemorações do centenário do seu nascimento começaram no passado 1 de julho e vão estender-se até 2021.
De Amália está tudo dito e redito, as comemorações vão voltar a repetir as histórias e curiosidades que toda a gente sabe, eventualmente algumas reavivadas, pois a nossa memória se não for refrescada também se perde. Lembro-me que os meus pais gostavam muito de a ouvir, pessoalmente, só já entradote na idade, comecei a habituar o ouvido à sua voz e ao fado. A primeira canção de Amália da qual posso dizer que gostei foi do “Barco Negro” que julgava ser inédita e construída de propósito para a sua voz. Só muito mais tarde soube que a canção que Amália de certa maneira imortalizou era, afinal, inspirada numa canção brasileira denominada “Mãe Preta”, composta por dois brasileiros, Piratini (Antônio Amábile) e Caco Velho (Matheus Nunes), gravada em 1943 pelo conjunto Tocantins. A versão original foi censurada em Portugal, pelo que, com um texto novo (de David Mourão Ferreira) e alguma adaptação musical, a Mãe Negra virou Barco Negro. A Amália não cantou o drama da escravatura, cantou o drama de quem espera por alguém que já não volta.
Desaparecida a censura apareceu a “Mãe Preta”, com algumas interpretações notáveis, mas sem atingir a popularidade do “Barco Negro”.
São estas duas canções que dão som à crónica de hoje, através de dois vídeos vetustos, mas históricos. No primeiro temos a voz poderosa, sonora, ondulante e arrepiante de Amália cantando o “Barco Negro”. No segundo, que deveria ser o primeiro não fora estarmos a comemorar o centenário do nascimento de Amália, temos os Tocantins e a sua “Mãe Preta”.
Todas as línguas têm as suas vozes, convém manter os ouvidos limpos e espaçosos para as podermos apreciar condignamente.