Cardus Edição 82, 15-06-2020

Construir uma casa

Toda a gente gosta de ter uma casa. Grande, pequena, própria ou alugada, a seguir ao carro, ela é a grande prioridade das pessoas que vivem neste pequeno retângulo.

Gostar de ter uma casa é um desejo natural, mas as coisas não nos aparecem porque gostamos ou desejamos. É preciso comprá-la, construí-la ou, para quem tem ascendentes ricos, ter a sorte de lhe cair uma por herança (normalmente a precisar de obras para o que também é preciso algum dinheiro).

O tipo de casa e o modo de construção variam de país para país, a maior influência vem da cultura e do clima.

Na Guiné, para se construir uma casa, desbrava-se um bocado de selva, convoca-se a família, erguem-se paredes de adobes (feitos com barro e capim) e, atingida a altura conveniente, coloca-se uma estrutura de paus para suportar o telhado, normalmente constituído por chapas de zinco. Só é preciso dinheiro para os pregos e chapas, tudo o resto é disponibilizado pela mãe natureza bem ao lado do estaleiro. As portas e janelas podem vir depois, o frio não aperta muito por estes lados.

Muito mais a norte, onde o frio domina quase todo o ano, uma casa constrói-se escolhendo uma pedra tão horizontal quanto possível, em cima da qual se coloca a casa. Esta é feita de madeira que se obtém cortando árvores do bosque ao lado. As árvores são cortadas em lamelas de boa espessura, que vão ser as paredes, o soalho, as escadinhas e os tetos da casa. No interior, tudo o que é vertical fica carregado de quadros e bugigangas, tudo o que é horizontal fica coberto de velinhas que, quando acesas, indicam que a casa tem gente dentro. A parte bucólica acaba aqui, a seguir entra a alta tecnologia, a mais importante, a do aquecimento, que fica tanto quanto possível escondida de modo a não perturbar o ar natural e simples da habitação.

Por cá não se usa a madeira nem o adobe. Usa-se o tijolo, telha e uma coisa chamada betão, material resistente e duro como convém. A casa é uma espécie de bunker, rodeado de muros altos, alguns ainda encimados por umas lanças próprias para empalar ladrões desequilibrados. Divisões pequenas e labirínticas enchem o espaço interior, todo atafulhado de quinquilharias e móveis, por cima dos quais, às vezes, é necessário saltar para se atingir um determinado lugar. À volta da casa cobre-se tudo o que podia ser verde ou natural com ladrilhos, uns quadrados de cor branca a cair para o sujo, que são muito bonitos e não precisam de grandes cuidados. O importante na construção da casa é garantir a privacidade, a segurança e a rentabilização dos espaços.

Pessoas mais modestas ou caprichosas podem construir cabanas, uma versão mais simples e económica de uma casa. Uma cabana moderna compra-se em kit, com instruções de montagem onde é preciso ter uma grande capacidade de interpretação para saber como fazer. As madeiras vêm todas cortadas à medida e com os encaixes já feitos. Em princípio seria só encaixar e aparafusar, não fora, entretanto, a madeira ter empenado. Nada que um bom martelo, ou melhor ainda, uma boa marreta não consiga resolver, à custa de algumas lascas que aproveitam a pancada para se libertarem do corpo que as prendia. As cabanas têm a vantagem de serem pequenas, o que quer dizer que não é preciso muito dinheiro para as encher. Um colchão no chão, uma ou duas cadeiras, uma mesa, um fogão Camping Gaz, uma prateleira para os tachos e fica cheia. Têm-se assim condições para dormir e comer que é o básico da vida. Não é bem assim, para viver é preciso ainda ter água por perto, pelo que convém montar a cabana perto dum vizinho simpático, dum poço próximo, ou perto dum rio, assim haja área disponível nas margens ou perto delas. Para outras necessidades e apertos há que vir para fora e, pontualmente, procurar locais ou recantos que garantam a privacidade que alguns atos requerem.

A casa é muito importante, mas nem toda a gente precisa de uma casa para viver. Um habitante do deserto precisa apenas dum camelo (para se deslocar), duma manta (para dormir) e dum tacho (para comer). Foi o que aprendi num programa de televisão sobre o deserto, que vi há uma boa série de anos, e que me ficou registado para sempre na memória.