Cardus Edição 80, 16-05-2020

Nunca é tarde para aprender

A avó foi das primeiras coisas a notar a partir do momento em que começou a tomar consciência do mundo que a rodeava para além do familiarmente mais próximo. Só a avó existia, tudo o resto eram sombras difusas que não lhe despertavam grande atenção.

Um dia uma das sombras tornou-se mais nítida para ela. Aproximou-se, ou para ver melhor ou porque algo a atraiu, fosse uma frase, um piropo, ou outra coisa qualquer. Tinha descoberto o avô, sentou-se junto dele, ficaram os dois a ver televisão, o avô nem se mexia para não perturbar ou estragar a magia do momento.

O Avô sempre teve problemas de comunicação com pessoas e principalmente com crianças. Perante uma criança, regra geral, não sabia o que fazer nem o que dizer. Quando tentava fazer qualquer coisa saía-lhe tudo desajeitado e sem graça. Ficou preocupado quando reparou que as novas filhas contavam com ele para algum apoio aos filhos que, entretanto, foram nascendo. Um dia, quando se apercebeu que ia ficar sozinho com os netos, não deu parte de fraco, mas foi acometido por uma dose apreciável de pânico.

Havia que fazer qualquer coisa.

Começou por ver como é que a avó trabalhava, como geria as birrinhas de cada um e o relacionamento entre eles. Aprendeu mais técnicas, muitas delas pela experiência que, entretanto, ia adquirindo e que, regra geral, o deixavam cansado e a dizer mal da sua nova vida.

E assim se passaram um, dois, três anos, a avó ocupando a maior parte do espaço e, na ausência dela, o avô fazendo pela vida.

Um dia estavam o avô e a neta na cozinha, ela ao colo dele, provavelmente lendo um livro ou qualquer outra atividade, enquanto esperavam pela avó que haveria de chegar. Quando esta entrou em casa, a neta não saltou imediatamente do colo, não correu logo para a recém-chegada, como era hábito fazer. Deixou-se estar, aparentemente indiferente a quem tinha chegado.

O avô estranhou e, pensando que ela provavelmente não se tivesse apercebido da novidade, disse-lhe ao ouvido: - Olha, a avó já chegou.

-Eu sei!

E ajeitou-se melhor no colo, continuaram a fazer o que faziam e ao que parece não merecia ser interrompido.

Uns minutos depois, saltou então para o chão e, sem pressas, lá foi ao encontro da avó para as efusividades habituais.

O avô continuou tranquilo na cozinha, com aquela tranquilidade que nos invade quando chegamos ao fim duma caminhada e ao local onde queríamos chegar.