Cardus Edição 79, 01-05-2020

Solidariedade

By Ajay Suresh from New York, NY, USA - Cordoba-32, CC BY 2.0,

Há cerca de vinte anos, juntamente com a minha mulher e um casal, fomos ao encontro da mesquita de Córdoba, um ponto de passagem pré-estabelecido num pequeno périplo que fazíamos pelo sul de Espanha.

Entrados no templo e caminhando em direção ao centro, fomos admirando o chão, os pilares e a infinidade de arcos coloridos com as zebras mundialmente famosas. Uma geometria perfeita, teto baixo, e uma sensação esquisita a envolver-me, o que normalmente me acontece quando entro em espaços arquitetónicos ligados à religião.

De repente, atingido o centro da mesquita, desaparecem os arcos e deparo-me com uma catedral. Isso mesmo, uma catedral, um templo católico, incrustado no coração dum templo muçulmano.

Chocado pelo sacrilégio, saí dali tão cedo quanto possível. Cá fora comentei o caso com o grupo. Ninguém tinha tido qualquer choque, era tudo muito bonito, lá estava eu com as idiossincrasias habituais. Mais tarde comentando o mesmo tema com um filho, a resposta não foi melhor, agora acrescida do pormenor que, do ponto de vista arquitetónico, a mistura dos dois estilos até resultava bem.

O tema ficou fechado, mais turismo havia para fazer, a viagem continuou, comigo ficou o choque que até hoje perdurou.

Recentemente, pesquisando poesia para divulgação, folheava a antologia poética de Miguel Torga. E aí, na página 288 (Miguel Torga, Antologia Poética, 7ª edição, D. Quixote, 2014), deparo-me com o seguinte poema, cujo título é “Na mesquita de Córdoba”:


Recolheu ao seu berço, perseguido
Por um outro colega intolerante,
Alá, deus das Arábias ressequidas.
Cansado das securas do deserto,
Veio ver como era a Andaluzia;
E gostou deste chão de riso aberto
Onde seu coração reverdecia.

Mas, corrido a orações e virotões,
Num minguante de mouras ilusões,
Lá se foi novamente às suas dunas
Caiar de branco a fé das açoteias.
E o seu palmar divino arquitetado,
Que aqui plantou, ondula mutilado,
Com saudades do dono e das areias.


Não resisti a um sorriso de consolo por esta prenda solidária que um grande alguém deixou enquanto vivo.