Cardus Edição 78, 15-04-2020
Era um belo pinheiro. O desalmado recebeu-o, acabado de nascer, como prémio de participação numa prova denominada “corrida da árvore” que todos os anos tem lugar em Monsanto.
À falta de melhor sítio foi plantado no quintal da casa. Cresceu e rapidamente começou a esbracejar para os lados. O desalmado ia-lhe cortando os tentáculos, contudo poupava-lhe a cabeça e os membros superiores, mutilava-o, mas não lhe tirava a vida. E o pinheiro crescia à medida que os membros inferiores iam desaparecendo devolvendo espaço a quem dele precisava.
Cada vez mais alto começou a fazer cada vez mais sombra que no verão sabia bem a todos, mas no inverno tirava o sol a quem também dele gostava. As raízes também cresceram, o chão subia para dar espaço a quem por ele lutava.
O pinheiro fazia anos em março, tinha acabado de festejar o seu 11º aniversário. Já não vai festejar mais nenhum. O desalmado, desta vez, não se limitou aos membros inferiores. Lentamente, um a um, foi cortando os ramos até ficar, apenas, o tronco e a cabeça ao alto. A parte mais difícil foi cortar, primeiro a cabeça e finalmente o tronco. Ficou apenas um cepo que vai perpetuar a memória da árvore que suportava. No chão ficaram a cabeça decepada, o tronco mutilado e os ramos com as pontas floridas que iriam dar origem a novos ramos. Um sangue claro e viscoso, brotava das feridas abertas pelo serrote implacável do desalmado. As folhas vão redundar em caruma que juntamente com os ramos atempadamente secos vão aquecer a casa de quem os esquartejou.
O desalmado é quem escreve esta crónica. Tem uma vida já longa de árvores plantadas, muitas delas bem longe do local onde hoje mora. Custou-lhe matar o jovem pinheiro indefeso, infelizmente neste mundo viver é destruir vida.