Cardus Edição 77, 01-04-2020

Teorema de Pitágoras

Em Angola, toda a estrutura organizativa ruiu completamente com a saída da população portuguesa no período da pré e pós-independência. Havia uma grande falta de quadros em todo o lado, nomeadamente na administração pública e no ensino. Para manter as escolas em funcionamento o governo viu-se obrigado a contratar professores com habilitações muito abaixo das normalmente exigidas. Grande parte dos professores estudavam e davam aulas, eram alunos de manhã e professores à tarde ou à noite. O ensino degradou-se um pouco, mas pessoalmente pareceu-me uma medida muito acertada, as escolas não fecharam e os professores fizeram-se a dar aulas pois, como dizia Oscar Wilde, a melhor maneira de aprender é ensinar.

A história que vou contar li-a numa crónica de jornal publicado na altura. Não sei se foi mesmo assim, penso que o apelo à leitura obriga os jornalistas a carregarem os textos com alguma ficção, mas que a história pode mesmo ter acontecido disso não tenho dúvida nenhuma.

O sumário desse dia na aula de matemática era o teorema de Pitágoras e respetiva demonstração. O professor levantou-se, pegou no giz, disse qualquer coisa, virou-se para o quadro e iniciou a demonstração. O quadro preto começou a ficar cheio de figuras geométricas, números e símbolos. Os alunos ouviam a explicação e aperceberam-se que o professor falava cada vez menos. A dada altura calou-se completamente. Apagava, voltava a escrever, o quadro transformou-se num emaranhado de riscos cada vez mais complicado e difícil de perceber. Os alunos habituais começaram a fazer perguntas, nem sempre sobre a matéria, o professor não respondia e começou a notar-se-lhe umas pequenas gotas de suor na testa. A turma na conversa, o professor nada dizia, escrevia, vinha para trás, dava um salto, apagava tudo, voltava a escrever, e mais uma paragem no sítio que os alunos de tanto ver já sabiam onde era. Os alunos já andavam de carteira em carteira, o mais esperto perguntou ao professor se precisava de ajuda, mas o professor não respondia a ninguém, escrevia, bloqueava, afastava-se do quadro, pensava, dava um salto para a frente, apagava tudo e continuava a escrever até ao bloqueio.

O tempo passou-se, o fim da aula estava-se a aproximar. De repente toda a gente se apercebeu que alguma coisa se ia passar, a algazarra terminou, toda a turma se calou na expetativa do que iria suceder. O professor parou de escrever, mas não se afastou do quadro, virou-se finalmente para os alunos, ao mesmo tempo que atirava o giz para o parapeito do quadro. E então, limpou a testa, e com um ar perfeitamente tranquilo e descontraído, disse:

Camaradas* alunos, o teorema de Pitágoras é assim: umas vezes dá, outras vezes não dá! E saiu pela porta fora, indiferente aos assobios e sapateado com que, muito provavelmente, foi brindado pela turma.

Às coisas que fazemos na vida, ou pela vida, também se aplica a máxima do professor: Umas vezes dão, outras nem por isso.


*camaradas foi o termo que substituiu o senhor na fase da independência. Nem todos eram camaradas havia também os irmãos. Os primeiros pertenciam ao MPLA, os segundos à FNLA ou UNITA. Mais tarde apareceram os camarões termo pejorativo para designar aqueles que tinham trocado de partido.